Flamengo 0x1 Grêmio – Alguém lá em cima parece gostar muito de nós

(Foto: Buda Mendes - Terra)
(Foto: Buda Mendes – Terra)

Há certos momentos na vida em que nenhuma ideia nos parece melhor do que fugir, sumir, simplesmente esconder-nos, desaparecer totalmente. Esses momentos, no entanto, são os que mais precisamos lutar. Assim é na vida, assim é, também, no futebol.

Por razões que meu raciocínio não alcança e que outros melhores que eu não conseguem me explicar, o Grêmio mergulhou numa crise que dura já mais de uma década. Brigas internas, choques de vaidades, ataques aos cofres do clube, enfim, são muitas as causas da crise, ou as teorias que tentam explicá-la. 

Essa foi uma semana muito difícil pra mim. Na quarta-feira à tarde eu tentava imaginar o que se passava na cabeça do presidente Koff no momento em que adentrava a sala do STJD. Naquele momento ele já não era mais o velho Koff, o presidente que descobriu a América e conquistou mundo, naquele momento, para os auditores e para o resto do mundo, ele era apenas o presidente daquele clube racista lá do Sul.

Eu não tenho certeza se, por eu ser gremista, tenho mania de perseguição, ou se sofro, de fato, perseguição sistemática em razão de ser gremista.

Sei lá, não sei mais nada. A condição de clube mais punido do Brasil, adquirida pelo Grêmio, deve ser culpa do Grêmio. Ou será culpa do Brasil?

A gente deve ter algo errado. Alguma coisa nos torna diferentes. 

Eu não faço ideia do que seja essa ‘coisa’, mas eu adoro ser diferente.

Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, um clube diferente. Eu gosto.

Muita gente falou muita bobagem nos últimos dias. (Eu inclusive). Em meio século de vida, não tinha ouvido, como ouvi nos últimos dez dias, tantas vezes a palavra racista. Quase todo mundo achou muito legal acusar o Grêmio e os gremistas de coisas que na verdade não somos, de nos imputar defeitos que não temos. Até o auditorzinho aquele, ele sim racista, se achou no direito de falar mal da gente. O Grêmio foi usado, durante mais de uma semana, por uma elite branca, que domina a mídia e que detém todos os cargos decisórios do país. Essa gente precisava, e muito, de um cala-boca.

Vencer o Flamengo, o clube de maior torcida do mundo, lá dentro do Maracanã, o estádio mais famoso do mundo, deve ser suficiente para calar algumas dessas bocas mal intencionadas.

Eu vejo gente falsa. Com que frequência? O tempo todo. 

E todo tempo essa falsidade, que favorece uns em prejuízo de outros, se volta contra o Tricolor mais odiado do Brasil. Batem, perseguem, difamam, injuriam. Por vezes me parecem que estão tentando matar nosso clube. Pobres idiotas, não percebem que é inútil tentar matar um imortal?

Um a zero. No último minuto de jogo. Só pra mostrar que o Grêmio é mesmo Imortal, e que, não importa o quanto o mundo inteiro nos odeie, alguém lá em cima parece gostar muito de nós.

 

Lei Imperial nº 3.353

Lei_Áurea

 

 

 

 

Você conhece a Lei Imperial nº 3.353? Claro que conhece. Qual brasileiro não ouviu, desde criancinha, sobre a famosa Lei Áurea?

Sancionada em 13 de maio de 1888, a Lei Imperial nº 3.353 ainda não ‘pegou’ de fato. 

Eita, Brasilzão, terra adorada…!!

O Brasil tem um jeito tão brasileiro de ser que proporciona coisas desse tipo. Aqui tem lei que ‘pega’ e lei que não ‘pega’ de jeito nenhum. É o jeito da gente. Quem não quiser, não aceite. A gente, por enquanto, é assim.

A Lei Áurea objetivava abolir a escravidão. Devolver aos negros contrabandeados da África sua condição de seres humanos.

Quando eu era uma criança inocente acreditava na eficácia desta Lei. Hoje sei que ela é apenas mais uma daquelas que não pegaram.

Depois de tudo o que ocorreu nestes últimos dias, e sendo esse um blog visceralmente gremista, pode parecer que esta postagem esteja relacionada aos fatos ocorridos na Arena durante a partida contra o Santos. Alguém pode achar que eu esteja querendo retomar o tema das acusações de racismo que pesam sobre todos nós, os gremistas, de forma generalizada. Mas não, não é isso. O tempo sempre coloca tudo no lugar, e eu, aos poucos, vou me conformando com a minha condição de racista, ainda que não o seja.

Mas espere… se o tempo realmente coloca cada coisa em seu lugar, porquê ainda existe gente escrava?

Estamos no Século XXI, e a condição humana de tal forma afastou-se de sua condição natural que todos nos tornamos escravos.

Creio que o mundo inteiro, mas o Brasil em particular, está repleto de escravos.

A proliferação dos templos evangélicos, desde os bairros mais nobres até os mais humildes, e a invasão televisiva dos falsos profetas produzem milhões de escravos da fé. Tem gente que acha que Jesus é a resposta para tudo. Se você perguntar a um escravo da fé quem pode salvar o mundo, ele dirá que é Jesus. Se lhe perguntar quem tem o poder de curar todos os males da humanidade, ele responderá que é Jesus. Pergunte a um escravo da fé o que é a luz e ele responderá que a luz é Jesus. Que bonito. Mas pergunte quanto é duas vezes três e ele reponderá que é Jesus também.

Tem gente que é escrava da mídia. Gente que crê na Globo tal qual o crente crê na Bíblia. 

Tem também os escravos políticos, escravizados por ideologias que não seriam jamais capazes de explicar, pois nem ao menos as conseguem entender. 

Da pequena parte do mundo que habito eu vejo muitos escravos. Dentre todos, nenhum pior do que aqueles que se deixaram escravizar pelo dinheiro. Os escravos do capital, os capitalistas, são, de longe, os piores tipos de escravos, pois sua servidão ao brilho falso da riqueza os faz capazes de destruir, roubar e matar. Por dinheiro, um capitalista destruirá a terra, contaminará rios e mar, poluirá o céu, e ainda achará que valeu a pena.

Para lucrar mil reais, um bilionário capitalista (redundante não? só capitalistas se tornam bilionários) será capaz de escravizar seus semelhantes. 

Foi assim no passado, é assim ainda hoje

O tempo não põe coisa alguma no lugar, ou então ele põe e sou eu que não sei nada.

Trabalhadores trabalham e produzem. Capitalistas colhem os frutos do trabalho. Vai ver é esse o lugar de cada coisa. Vai ver a Lei Imperial nº 3.353 não tinha que pegar mesmo.

A vida inteira eu pensei sobre o quão mais lindo seria o mundo onde não houvessem ganância e riqueza, onde os trabalhadores não tivessem que ser explorados por aproveitadores, onde não existissem os escravos. Pensei, pensei e pensei, e de tanto pensar acabei por tonar-me, eu também, um escravo dos meus pensamentos.

Vai ver o tempo não passa e as coisas estiveram todo tempo em seu lugar.

Ou vai ver o tempo passa rápido e sou eu que, agora velho, já não consigo encontrar o lugar das coisas.

Somos todos macacos?

macaco (1)

Todo mundo conhece a história da banana atirada contra Daniel Alves pela torcida do Villareal durante partida do Campeonato Espanhol da temporada passada.

Daniel comeu a banana. Simbolicamente, ‘devorou’ o racismo contido no gesto de quem a atirou.

A partir daí, e muito rapidamente, utilizando a imagem de Neymar, surgiu uma campanha, alegadamente antirracista, que tomou conta das redes sociais e gerou muito dinheiro.

Não tenho conhecimento de que a campanha “Somos todos macacos” tenha causado algum efeito prático na luta (se é que de fato existe uma luta) contra o racismo.

Mas, pense bem, será verdade que somos todos macacos?

Qualquer pessoa, por mais fraca que seja na interpretação de texto, vai ser capaz de compreender que o “somos” do título da campanha faz referência, única e exclusivamente, ao seres humanos. Nenhum outro animal foi convidado a participar da campanha. Talvez porque o único animal conhecido possuidor de cartão de crédito e portador de capital para sustentar campanhas que, lá no fundo, apenas visam o lucro é mesmo o ser humano.

Não, não somos todos macacos. Os brancos sabem muito bem que humanos e macacos são espécies distintas. E quando um branco se refere a um negro como macaco, sua intenção é apenas ofender e humilhar. Não foi diferente na noite em que torcedores gremistas chamaram o goleiro adversário de macaco.

Por mais que eu seja gremista, por mais que o Grêmio seja parte importante da minha vida – e o Grêmio realmente é -, não posso discordar da decisão tomada pelos auditores do STJD na tarde de ontem. Ainda que o blog Grêmio 1903 traga provas que depõem inegavelmente contra um dos auditores que votaram pela exclusão do Imortal, eu não lamento o resultado. Eu realmente não esperava um julgamento justo e isento. Por dois motivos. Primeiro porque, como qualquer um pode verificar clicando aqui, jamais acreditei na isenção das pessoas, ainda mais depois que a mídia, como geralmente faz, já havia assumido o papel de Poder Judiciário e, sem inquérito e sem direito à defesa, condenado o Tricolor; e, segundo, porque achava que o Grêmio merecia mesmo punição.

O poder criativo da mídia é interminável. A mídia cria heróis e vilões, cria modas, cria padrões de consumo e de comportamento. Se preciso, cria os fatos. Cria também marcas extremamente fortes. O país da impunidade é uma das marcas coladas ao Brasil dos tempos recentes. Não vou discutir se isso é um reflexo da realidade ou apenas mais um produto da inesgotável criatividade dos senhores comandantes das grandes corporações midiáticas. Mas cabe lembrar – só porque sou chato e declarei ódio eterno à mídia capitalista – que o Brasil detém a segunda maior população carcerária do planeta. Será que isso é punir pouco? A maior parte desta população, por óbvio, tem pele negra.

Eu penso que a injustiça é algo ainda pior, infinitamente pior, que a falta de justiça. Vejo muita gente, gaúchos ou não, gremistas ou não, denunciando, agora, que o Grêmio teria sido vítima de injustiça na tarde de ontem no STJD. Apesar de tudo o que escrevi aí acima sobre certas ‘peculiaridades’ de pelo menos um dos auditores que condenaram o Grêmio ontem e sobre a necessidade de condenar o clube devido à pressão dos meios de comunicação, ainda assim não acho que o Tricolor tenha sido vítima de injustiça. A tv mostrou claramente (e a internet fartamente) a imagem de uma menina chamando o goleiro adversário de macaco. Outros torcedores, através de gestos, palavras e imitações, também o injuriaram. O Grêmio afirma que, além da menina, teriam sido mais quatro. A lógica manda acreditar que esse número seria bem maior. Atitudes racistas ocorreram naquela noite dentro da Arena. Seria, além de muito burro, extremamente injusto querer negar. A multa de pouco mais de 50 mil reais e a exclusão de uma competição que – vamos ser sinceros – ele já estava eliminado ficou até de bom tamanho. Eu cheguei a imaginar que pudesse ser pior.

Dizem que a mancha de ser excluído de uma competição por racismo permanecerá para sempre na história do clube. Posso concordar que isso é algo muito triste, mas não posso culpar o STJD por isso, nem culpar seu auditor de comportamento reprovável. A história do Grêmio vem sendo escrita, dia após dia, desde 1903. Na noite de 28 de agosto de 2014, na Arena, a gente estava escrevendo mais um pedaço dela. As pessoas que resolveram se comportar como se humanos não fossem, elas sim mancharam a história, não foi o STJD. Se o Grêmio não merecesse uma punição severa, e até nem achei tão severa, seria, aí sim, de uma extrema injustiça. Contra os negros e contra todos os que acreditam que somos todos humanos, não macacos.

Um homem jamais deve cometer a tolice de ter a certeza de que está certo.

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