Ninguém sai, o Grêmio fica

Ah, a classe média alta. Ela e seus herdeiros insensatos e insensíveis. Os filhinhos do papai, os mimadinhos. Quem nunca dividiu com outros dez ou doze uma casa onde cabiam apenas quatro ou cinco, não sabe o valor de um grito de liberdade. Quem sempre teve todas as necessidades atendidas, jamais dependerá de um simples título de Gauchão para se sentir realizado. Somos pessoas comuns, torcedores comuns (tóxicos, segundo a atual direção gremista), a maioria de nós depende do Grêmio para alguns esporádicos lapsos de grandeza. É só quando o Grêmio faz algo grandioso que gente como eu consegue se sentir realmente grande e importante. É só nestes momentos distantes e passageiros. Vida de torcedor. Sofrer, amar, ser grande, gigantesco. Cair. Sofrer, amar. Ser torcedor.

Fábio Koff era um Juiz de Direito com uma incrível capacidade de tornar o Grêmio campeão. Impecável e imelhorável em cada vez que presidiu o clube. Curioso é que todos os males atuais do Tricolor sejam consequência de um erro de julgamento do consagrado juiz. Julgar que Romildo Bolzan Jr. seria o nome ideal para conduzir os rumos do Grêmio após a mudança de endereço foi um erro. Um grave erro. Apenas não digo que foi um erro imperdoável porque acredito que (quase) todos merecem perdão. E Koff merece mais que a maioria dos outros.

A imensa maioria de nós jamais pensou em governar o Rio Grande. Alguém, porém, sonhou com isso. E tinha berço, e por isso tinha trânsito entre os bem nascidos que sempre foram os donos, de fato, do Grêmio. Koff colocou, com seu nome e sua influência, um tal Romildo Bolzan Jr., do qual ninguém havia ouvido falar, no trono de nosso reino azul. Azul e mágico, que um dia fez um homem simples como eu sentir-se um campeão mundial.

Mas o filho de Seu Romildo tinha sonhos de grandeza. E em seus sonhos o Grêmio não era o fim, mas o meio. O Grêmio nada mais era que uma escada que o conduziria ao topo. Um mandato de governador do estado, talvez dois. Quem sabe o que poderia vir depois? Uma candidatura ao Planalto? Manobras legais que arrastaram o final de seu mandato no Grêmio até o ano eleitoral não podem ter sido simples coincidências.

Estamos acostumados a ouvir dizerem que as pessoas (dirigentes, treinadores, jogadores) vêm e vão, o clube fica. Estou ficando preocupado. Desta vez está sendo diferente, pois parece que quase todas as pessoas vão ficar.

Mesmo após rebaixar o clube e se desculpar na primeira pessoa do plural, sem assumir realmente qualquer responsabilidade, o presidente vai ficar. Seu estranhamente longo mandato só acaba no final de 2022, e ao afundar o Grêmio enterrou sua sonhada candidatura ao Piratini, então ele vai ficar. Denis Abrahão, com aquele seu entusiasmo verbal que o faz parecer um ótimo vendedor de frutas na feira, também vai ficar. Vagner Mancini, talvez o menos culpado mas nem por isso totalmente inocente, é outro que vai ficar. Se passar pelo teste dos grenais do Gauchão fica para ser o treinador do Grêmio na Série B, se fracassar diante do Inter talvez nem chegue à estreia. Mas a princípio ele fica. E Cláudio Oderich também fica, fica escondido como tem sido desde que ele resolveu criar caso com Renato, mas infelizmente ele fica. Duda Kroeff disse que os membros do CA não têm culpa de nada, já que não são eles que fazem contratações ou escalam a equipe que entra em campo, então ele fica também.

“O Grêmio vai jogar a Série B”, mas ninguém tem culpa, então toda aquela gente fica. Eu também fico. Mas eu fico é preocupado, pois de alguns dias para cá comecei a imaginar que se o Grêmio se meter na Série B com toda essa gente no comando, não duvido que ele fica.

O que Renato falou sobre Vitinho

Querem me fazer acreditar que Renato entregou para o Grêmio.

Circula nas redes um vídeo com uma conversa entre Renato e seu auxiliar, Alexandre Mendes, onde supostamente o assunto tratado seria a saída de Vitinho para facilitar as coisas para o Tricolor.

Primeiramente precisamos definir com clareza o que significa “entregar” um jogo.

Quando você está enfrentando uma equipe que necessita de um mísero ponto para alcançar um título, conquistar uma vaga ou fugir de um rebaixamento, e permite deliberadamente que ela empate, você está entregando o jogo.

Não me parece ter sido isso o que aconteceu na Arena. Um ponto significa quase nada para o tamanho das necessidades do Imortal. Ao empatar (de propósito ou não), mais do que nos ‘entregar’ um ponto, o Flamengo nos arrancou dois.

Do jeito que as coisas estão, dois pontos podem ser mais do que a diferença que levará o Grêmio de volta à Série B, caso isso venha a acontecer (toc, toc). Seguimos acreditando e torcendo para que não aconteça, mas ficou bastante mais possível agora que o Grêmio deixou escapar uma oportunidade em casa.

Quanto ao vídeo de péssima qualidade que circula por aí, e que motivou alguns representantes da IVI a tecerem pesadas críticas ao treinador campeão da Libertadores de 2017, acho que estarei dando uma imensa contribuição ao postar a versão verdadeira, com uma leitura labial simplesmente perfeita, imparcial e insuspeita.

O vídeo abaixo é a leitura perfeita e representa a tradução literal (sem alterações) da conversa entre o treinador do Flamengo e seu auxiliar e que revela uma verdade que a IVI há mais de quarenta anos não consegue engolir. A verdade nua e crua. “Duela a quien duela”.

O culpado e o cara que virou estátua

– Lembra aquele jogo, aquela vez que o Grêmio tava na Segunda Divisão?

– Qual delas?

Pois é, as lembranças se misturam. A gente já tinha passado por isso. Agora vai passar de novo.

Como foi que isso aconteceu? Difícil dizer, mas certamente não foi de uma hora para outra. O Grêmio não caiu de forma repentina e inesperada. Tudo ocorreu dentro de um processo, uma sucessão de equívocos e inações. Uma coisa que teve início ainda lá em 2019, e foi denunciada por Kannemann no início de 2020.

Não sei se é um comportamento exclusivo dos brasileiros ou comum a todos os latinos, mas sei que por aqui, quando as coisas dão errado saímos à caça do(s) culpado(s), mais tarde, se houver tempo, a gente se preocupa em encontrar alguma solução.

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Romildo Bolzan Jr. e Renato Portaluppi são, de longe, os nomes preferidos daqueles que ainda estão em busca de culpados.

Nem que eu fosse louco, e a maioria dos que me conhecem concordam que sou, eu absolveria Romildo Jr. dessa culpa. Romildo Jr. é culpado. Mais do que isso, é o responsável pela formação das circunstâncias que favoreceram o surgimento de outros culpados. Meu Deus, Romildo Jr. é “o” culpado.

Contra Renato pesam duras acusações. Arrogante, egocêntrico, mandão. Para alguns, ainda hoje, mesmo após as conquistas, Renato não passa de um mero animador de vestiário, um amador que, sem conhecimento teórico, se vale apenas da motivação como forma de trabalho. Tem gente que acha que aquela estátua está lá na Arena apenas porque Renato pediu, que nada aconteceu antes disso, muito, muito antes disso, e foi conduzindo a história até o ponto em que conhecemos, aquele ponto em que Renato se transforma em uma estátua na Arena.

O saudoso e inesquecível Fábio Koff logo percebeu que a negociação para a construção da Arena era tremendamente desvantajosa ao clube e identificou em Romildo Bolzan Jr. o quadro ideal para a condução da renegociação iniciada a partir de sua eleição ao final de 2012. Certamente parece muito difícil acreditar que uma mente tão brilhante quanto a do glorioso ex-presidente Koff ainda guardasse espaço para alguma ingenuidade. Entretanto, não encontro termo mais gentil para qualificar o grave erro cometido por Koff ao não levar em consideração o infinito apego ao poder, característica de todo político profissional, que é, afinal, o que Romildo Jr. é realmente, um político. Menos que um trabalhador. Apenas um político.

O apego doentio ao poder deste senhor é tão grande que Romildo Jr. chegou a promover alterações no estatuto do clube, alterações que alongaram os mandatos de dois para três anos e, pasmem, lhe permitiram concorrer a uma segunda reeleição. Tudo em nome do poder eterno. Rei do Grêmio, o Imperador do Humaitá. No exercício do poder, Romildo Jr. foi medíocre. Na verdade, menos que isso, ele foi lamentável. Jamais foi capaz de alcançar solução para a questão do estádio, embora por várias vezes tenha anunciado o final da pendenga e, inclusive, apontado datas para a assinatura de um suposto contrato que nunca existiu realmente. O ex-prefeito de Osório não soube dirigir o Grêmio, não soube comandar, não soube delegar tarefas nem foi capaz de se cercar de pessoas competentes. Tinha gente que ia lá apenas pra cumprir horário. Kannemann avisou, poucos deram importância. Ano após ano foram se formando espaços vazios na estrutura do clube.

Foi nestes espaços que Renato passou a atuar. Ser Renato Portaluppi não é ser pouca coisa. Ser Portaluppi no Grêmio… Bah, isso é o máximo que alguém conseguiu em mais de cem anos de história. Ainda assim, Renato era pra ser apenas o treinador. Não precisava e, dizem alguns, não devia se envolver com as outras áreas. No entanto, o homem se meteu em tudo. Ao longo do tempo foi-se formando a ideia de que lá no Grêmio tudo tinha que passar pela aprovação do Renato. Eu, porém, não me coloco entre aqueles que acreditam que isso aconteceu por imposição de Renato, mas, sim, pela omissão de Romildo Jr. Foi a omissão de Romildo Bolzan Jr., seu descaso com as coisas do clube, sua falta de amor ao Grêmio que gerou a necessidade do surgimento de um super treinador. Ainda bem que Renato estava lá. Outros não conseguiriam.

Renato fez muito além do que dele se poderia exigir. Salvou o Grêmio enquanto foi possível. Até ser abatido pela Covid logo após uma vitória em Grenal. Acamado, abatido e temporariamente indefeso, o homem que virou estátua se tornou presa fácil para os verdadeiros arrogantes, aqueles caras lá do CA. Um tal de Cláudio Oderich, um fazedor de salsichas (não comam salsicha, dá câncer), virou homem de repente e aproveitou que Renato estava distante e febril para atacá-lo. Renato se foi, que pena. Oderich curiosamente sumiu, que bom.

Recentemente, em entrevista ao jornalista Rica Perrone, Léo Moura afirmou que Renato acreditava que o Grêmio iria desandar depois que ele deixasse o clube. Mais uma vez Renato estava certo. Não, o Grêmio não está caindo por causa “das coisas que o Renato fez”. Na verdade, o Grêmio está caindo porque Renato não está mais aqui para tapar os buracos que Romildo Bolzan Jr. deixa.

E ainda tem gente que acha que aquela estátua está lá apenas porque Renato pediu.

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