Merda é palavrão? E pau, pau é palavrão?

O que está feito, está feito. O presidente Lula andou falando “merda”. Agora já é tarde, a merda foi feita, ou melhor, falada.

O próprio presidente, ao perceber o deslize, foi o primeiro a se manifestar sobre ele e avisou que, no dia seguinte, toda a mídia estaria noticiando o fato de que o presidente havia falado um palavrão. Enganou-se o presidente, não estamos mais nas décadas de 70 ou 80, o presidente já não discursa mais para os operários do ABC, agora Lula discursa para o Brasil, discursa para o mundo inteiro que, encantado com “o cara que surpreendeu o mundo”, está atento a tudo o que diz. A repercussão não esperou o dia seguinte, foi imediata, instantânea. Pauteiros, redatores e sei lá quantos outros profissionais trabalham na redação de jornais, telejornais, radiojornais e outras mídias eletrônicas deste mundo globalizado, todos correram a seus postos de trabalho para tentar serem os primeiros a divulgar a “merda” que o presidente havia falado. Todos se ocuparam da “merda”, ninguém mais lembrou do resto, das circunstâncias ou do objetivo do discurso no qual a tal “merda” foi inserida. Ninguém deu destaque ao fato de que o presidente discursava para uma platéia de populares, gente que ‘tá na merda’ desde que nasceu e louca para sair dela. Não se importaram em ressaltar que o presidente estava ali para assinar contratos de um dos programas sociais de maior relevância deste país, o ‘Minha Casa, Minha Vida’. Um contrato que garantia a construção de 5.894 moradias populares, outro contrato para a construção de outras quase vinte mil moradias. Não falaram quase nada disto, não se importaram com isto. A mídia formal, social-democrata, fixou-se na “merda”, gostou só da “merda”. E na “merda” ficou por vários dias. A palavra estampou manchetes de capa de jornais e revistas, foi pronunciada milhões de vezes em rádios e televisões de todo o país. Mas então, espere aí, companheiro. Que tão grave palavrão é esse que todos podem veicular na mídia?

Não acho que o presidente devesse ter pronunciado tal palavra em seu discurso. Porém não acho também que, por ela, o discurso tenha ficado ofensivo ou mal educado, ficou no máximo escatológico. Não acho que a palavra merda seja sempre um palavrão. Afora os nomes populares dados aos órgãos genitais, não creio que existam muitas palavras que possam ser consideradas palavrões sempre que usadas. Pau é palavrão? Se eu disser que ‘pau que nasce torto, morre torto’, não teria dito palavrão algum. Teria? Claro que não. Mas suponhamos que eu diga que ‘fulano nasceu com o pau torto’, bem, já aqui se pode encontrar um palavrão. Pentelho é palavrão? Eu sempre soube que pentelho era o nome dado aos nossos pelos pubianos, que se relacionava portanto, à nossa região genital. Para mim sempre foi palavrão. Mas de uns anos para cá, assim do dia para a noite, pentelho passou a designar um sujeito chato, irritante, deixou de ser palavrão. Ganhou a mídia com grande apoio do Faustão, que adora a palavra, e agora faz parte do vocabulário de qualquer pequena criança que nem imagina o que seja realmente um pentelho. Quase nenhuma palavra é, em si, um palavrão, tornar-se um palavrão irá depender do sentido que ela assumirá na frase. Na frase de Lula, e todos hão de concordar comigo, a palavra ‘merda’ não tem o sentido de fezes, de excremento humano, dejeto. Quando dizemos que algo ou alguém está na merda, o que queremos dizer é que está afundado em problemas ou dificuldades, é isso o que queremos dizer. Portanto, na frase dita pelo presidente, a tal da ‘merda’ significava apenas um problema, uma dificuldade. Problema é problema, coisa que ninguém quer ter, coisa que poucos tem a generosidade de te ajudar a resolver, mas não é palavrão. A ‘merda’ que o Lula disse estava no contexto, estava de acordo com a linguagem da platéia (tem gente que não conhece povo) e, no significado que assumiu na frase, nem pode ser considerada um palavrão.

Não posso acreditar que a mídia formal, social-democrata, tenha se incomodado tanto apenas porque alguém pronunciou a palavra merda, nem mesmo com o fato de ter sido pronunciada por alguém que é presidente. Para mim, o que acho que os incomoda mesmo é que Lula seja o presidente e que detenha, depois de sete anos, mais de oitenta por cento de aprovação. É isso que está doendo. Eles veem “o cara” lá e ficam pensando: “Que merda!”.

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4 opiniões sobre “Merda é palavrão? E pau, pau é palavrão?”

  1. Quanto às palavras Pentelho e Pau, cabe afirmar que não são palavrões, justamente por agregarem em si mais de uma definição denotativa. No entanto, isso não acontece com a palavra Merda. Esta não possui múltiplos significados, mas sim aplicações figurativas que derivam justamente de seu significado “primitivo”. Quando se usa a expressão “estar na merda”, não se quer dizer que algo está literalmente “enfiado na merda”, mas sua conotação de “problema, dificuldade”, não pertence ao significado denotativo do termo. É uma espécie de metáfora. Em resumo, assim como a expressão “cair do cavalo” não confere ao termo “cavalo” uma nova denotação (é só uma conotação), a palavra merda não adquire nova denotação por conta de expressões figurativas que a incluem. Merda é palavrão porque não detém dois ou mais significados formais, como é caso de Pau e Pentelho.

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