O Sertão vai virar mar. Obrigado, Lula.

 

Aqui chove bastante. Chove sempre. Agora, sábado, dia dezesseis de janeiro de 2010, às dezoito e vinte, está chovendo. Nasci em Porto Alegre e sempre vivi na chamada Região Metropolitana. Eu não conheço a seca. Aqui, nem mesmo estiagens costumam ocorrer. Gaúcho, acostumado ao frio e à geada, eu adoro o verão. Gosto de pescarias (embora, particularmente, não goste de pescar). Até pode parecer frescura, mas de uns vinte anos para cá comecei a sentir pena dos peixes. Não acho que eu tenha me tornado melhor do que eu era, mas é que não posso negar que eles, os peixes, ficavam cada vez menores. A pescaria é um esporte. Como posso eu, um adulto, sentir-me bem competindo com peixes pequenos? Peixes pequenos são apenas peixes crianças. Por favor, não pesquem as crianças.

Não consigo imaginar um lugar que não seja rico em água. Sei que existem, eu os vejo na TV, mas não os vejo em meus pensamentos.

A água está viva. A água é a vida. Não imagino, nenhum canoense ou portoalegrense pode imaginar, o que é a vida sem abundância de água. Assentada sobre o Aquífero Guarani, cercada de água por cima e por baixo, a Grande Porto Alegre é uma região privilegiada. Não sabemos dar valor à água, a menos que estejamos sedentos ou que, sem saber nadar, caiamos dentro dela.

(Apertou a chuva).

O Brasil sediará a Copa do Mundo em 2014, sediará também os Jogos Olímpicos em 2016. Conquistas do governo Lula? Não. Essas são, na verdade, apenas duas pequenas conquistas do povo brasileiro. Nossa vida era seca, sem graça e sem cor, aos olhos do mundo éramos ninguém. Agora não é mais assim. Agora o Brasil, e portanto nós brasileiros, precisa ser ouvido, precisa ser levado em conta. A opinião do Brasil, e portanto de nós brasileiros, passou a ser importante. Agora já somos ouvidos. Podemos pretender influenciar os destinos do mundo e da humanidade.

Hoje à tarde, tomando cerveja à sombra do cinamomo moribundo que ainda habita meu pátio – os cinamomos da Grande Porto Alegre estão todos mortos ou morrendo – eu olhei o céu do Oeste, lá pras bandas da Argentina, que é de onde vêm o frio e a chuva, vi que nuvens escuras se erguiam. Sabia que iria chover. Então, deixa chover. É coisa de Deus. A chuva é coisa que Deus deu, que Deus dá e que Deus dará.

Porém não dará igual a todos.

Aqui é o Rio Grande, terra protegida por São Pedro, padroeiro do estado e das chuvas. Aqui chove. (E continua chovendo agora, às 19:11). Noutros lugares não chove tanto assim.

Quem de nós conhece o semi-árido? Quem já viu a caatinga? Quem já andou pelo Sertão? Eu nunca andei no Sertão. O presidente Lula andou. Nasceu lá. Andou por lá. Andou, andou e andou. Andou até chegar em São Paulo, a terra da garoa, lugar onde chove muito, talvez mais que aqui.

A imagem da infância que Lula traz consigo é triste. Todo guri que nasceu pobre tem lembranças tristes, mas eu nasci pobre, num lugar rico em água, minhas lembranças não são tão tristes. Não dá para comparar. Todos nós, brasileiros de origem pobre, que ascendemos e agora podemos ter computadores e até mesmo blogs conhecemos, ao menos um pouco, o que é a pobreza, no entanto nem todos sabem o verdadeiro sentido da palavra miséria.

Nordestinos sabem.

Lula, o filho do Brasil, pai dos brasileiros  humildes, conhece a miséria. Lula sabe o que é a merda social.

E então disse o Lula, do alto de seu conhecimento empírico, daquilo que aprendeu na escola da vida que, na verdade, é a única capaz de nos dar algum conhecimento prático: "Nunca mais será assim. Vamos transpor o rio. O Sertão vai virar mar."

Assim está sendo feito.

Logo o Sertão irá virar mar. Um mar de prosperidade e riqueza.

A divisão socialmente justa desta riqueza irá depender de quem sucederá ao Lula.

Está em nossas mãos.

Particularmente, aqui em Canoas, depois do recadastramento biométrico, está na ponta de nossos dedos.

A chuva já quase parou. Nós não podemos parar. Não podemos parar de pensar na água, nos peixes crianças, no rio a transpor.

Não podemos parar de pensar em transpor o amanhã.

Temos de conquistar o amanhã.

Algum amanhã, essa é toda a herança que podemos deixar às nossas crianças.

Nossas pequenas crianças.

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