– Oi, tio. Quer comprar uma rifa?

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Tinha olhos pequenos e um corpo muito magro. Os cabelos e unhas sujos. Sua pouca estatura e a agudez de sua voz indicavam que talvez tivesse uns nove ou dez anos, porém sua magreza e a provável desnutrição me fizeram considerar que talvez tivesse mais, uns onze ou doze talvez. Não percebi sua aproximação, apenas ouvi sua fina voz, voz de criança:

– Oi, tio. Quer comprar uma rifa?

Só então o percebi. Olhei para ele. Corpo e cabelos queimados pelo sol insalubre do verão do paralelo trinta.

O pouco que restara da pintura da velha bicicleta deixava perceber que ela fora azul um dia.

Fui até o portão e tomei em minhas mãos o papel mal dobrado que sua pequena mão estendida me oferecia. Não era rifa nenhuma. Era um pedido de ajuda. Haviam vários pequeninos quadrados, cada um no valor de cinquenta centavos. Eu poderia doar-lhe alguma quantia em dinheiro e marcar com um “X” a quantidade correspondente de quadrinhos, ou então simplesmente doar-lhe algum gênero alimentício, essas eram as regras explicitadas no mal dobrado papel.

Li as ‘instruções’ e disse a ele:

– Isso não é uma rifa. Cadê o prêmio?

Ele me olhou, sorriu e falou com sua voz de criança:

– É uma rifa, tio. Quer comprar a rifa? Pra me ajudar.

Insisti:

– Não é uma rifa, não tem prêmio. Se não tem prêmio, então não pode ser rifa.

Dessa vez ele apenas me olhou e sorriu. Havia sinceridade em seus olhos e inocência em seu sorriso. Entendi: ele não sabia o que era uma rifa. Ele não sabia a diferença entre vender uma rifa e pedir uma ajuda. Não sabia. Entendi: ele foi sempre assim, foi isso o que aprendeu.

Dei-lhe uma moeda de um real e mais um quilo de arroz Rissul, marquei com ‘X’ dois quadradinhos e ele se foi. Acho que feliz.

Não sei o que será desse guri, nem sei quando o verei de novo, mas eu sei que o verei de novo. Uma vez que o ‘ajudei’, certo é que voltará. Sei que muitos seriam capazes de condenar o meu ato, que muitos seriam capazes de afirmar que eu não deveria fazer o que o que fiz, que isso apenas o incentiva a continuar pedindo. Mas pensem comigo: como poderia eu dizer não a uma criança? Como poderia mandá-lo embora em sua bicicleta quase azul, carregando seu papel mal dobrado e sua fome. O guri tinha cara de fome. Não era apenas fome de alimento, dava para ver que tinha fome de afeto. Acostumado a ouvir centenas de nãos ao longo de seus dias de ‘pedição’, o guri tinha fome de ajuda, de generosidade, de sorriso. O guri tinha fome de humanidade.

Eu sei que ele vai voltar. Agora que aprendeu a pedir voltará a cada lugar onde alguém lhe deu algo. Foi isso o que aprendeu. Aprendeu a pedir. Pois será isso o que saberá fazer quando estiver crescido: saberá pedir.

Ele não deveria estar pedindo, mas estudando. Agora, em tempos de férias escolares, deveria estar brincando, jogando bola no meio da rua como faziam os guris do meu tempo, mas que os guris de hoje não fazem mais. Não deveria estar pedindo. Não deveria ter sido ensinado a pedir.

Não sei o que será do guri quando crescer. Só posso crer que, tendo sido criado para ser pedinte, provavelmente continuará a pedir. Quando seu corpo já estiver crescido e sua voz já não for tão aguda e doce como a de uma criança será mais difícil, quase ninguém mais irá se comover com seus pedidos. O que fará o guri? O que fará o piazinho que aprendeu a pedir?

Não sei o que fará. Embora deseje, não confio ou espero que vá fazer a coisa certa. Ele não aprendeu o que é certo.

De uma coisa tenho certeza: se ele fizer alguma coisa impensada (coitadinho, nem foi ensinado a pensar) a sociedade não titubeará em julgá-lo. A mesma sociedade que hoje não o vê vagando pelas ruas de Canoas, que não o vê pedindo (“vendendo rifa”, que é o que ele acredita que faz), que não o vê fora da escola, que não o vê sendo conduzido para um caminho que ele mesmo, se pudesse, não escolheria. Enfim, a mesma sociedade que hoje, simplesmente não o vê.

Não estamos cuidando dos brotos, não veremos jamais as flores e os poucos frutos que colheremos serão tão amargos que nos farão arrepender-nos.

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