O sol por testemunha.

 

foto: Daniel Marenco

 

O quê devemos desejar de um profissional de mídia? Penso que compromisso com a verdade dos fatos e isenção na análise dos mesmos seriam características bem desejáveis para esse tipo de profissional. Mas será que é isso que podemos esperar deles?

Escutava, na sexta-feira, dia 5, o programa Sala de Redação e o assunto era a ação movida pelo Sindicato dos Atletas que resultou, em caráter liminar, na proibição da realização de jogos de futebol entre as 10 e as 18 horas em todo o estado do Rio Grande do Sul. Entre tantas argumentações apresentadas, não consegui identificar ninguém além do grande Cacalo que parecesse estar preocupado com os atletas, todos pareciam muito mais interessados em defender o direito da emissora de TV que adquiriu os direitos de transmissão do campeonato, por coincidência, a mesma que apresenta o programa Sala de Redação. Depois de muito discutirem, um deles decidiu lançar o argumento(?) definitivo, aquele que encerraria a discussão: "quem paga manda", disse ele.

Meu Deus do Céu, que argumento é este? O que esperar de um jornalista que pensa assim, que acredita nisto? Um profissional deste naipe só tem, eu acredito, um único e grande objetivo na hora em que relata um fato ou opina sobre ele: agradar o patrão. Um homem assim está pronto para dizer qualquer coisa que lhe for mandado e ainda sair jurando que aquilo é a mais absoluta verdade, ainda que saiba que não é; se o patrão mandar, ele jurará que é verdade. Será que esse pobre infeliz acredita que ao contratar o trabalho de um ser humano, a empresa compra também o seu corpo físico, a sua vontade, a sua liberdade, será que ele acha que o dono de uma empresa, além de ser o patrão é também o dono do funcionário?

Não espero nenhum nível de isenção de nenhum sindicato. Seria até ridícula a existência de um sindicato isento e imparcial. Sindicatos têm, obrigatoriamente, que verem tudo por um ângulo só, que é o do interesse da classe que representa, têm que ser enérgicos e, se necessário, radicais na defesa deste interesse. Mas não posso esperar nenhuma isenção também do jornalista que fez uso do tal argumento(?), nem tampouco daqueles que concordaram com ele. O jornalista parece não ter percebido que, caso fosse lógica esta sua ideia da relação empregado-empregador, o único nazista que poderia ter sido julgado seria o próprio Hitler, que era o soberano da Alemanha nazista, o chefe supremo, aquele que pagava o salário e que portanto, segundo essa ideia absurda, aquele que mandava. O jornalista não deve ter se dado conta de que é da renda de cada partida que sai o dinheiro destinado ao pagamento dos árbitros, sendo assim, se são os clubes que pagam a arbitragem, deveriam então juiz e bandeirinhas fazerem, no momento da partida, aquilo que lhes determinassem os capitães e os treinadores dos times disputantes. Já pensaram que interessante seria um jogo onde a arbitragem tivesse de obedecer e agradar aos dois times?

Não dá para esperar nada de jornalistas assim. Não dá para esperar nada do presidente da FGF, Francisco Noveletto, que oportunisticamente já passou a ameaçar os atletas de ficarem sem salário, não dá para esperar nem mesmo que as pessoas comecem a encarar o excesso de sol e calor como um fenômeno natural tão nocivo à prática quanto o excesso de chuva ou neve, capaz então de justificar o adiamento ou simples atraso de um jogo. Não dá para esperar que pessoas como as que hoje dominam o futebol deixem de vê-lo como um negócio capaz de gerar muitos ganhos a elas (mais até que aos próprios clubes) e passem a vê-lo como ele realmente é, um esporte encantador, capaz de arrastar bilhões de corações apaixonados por todo mundo, capaz de comover até os tiranos mais cruéis, capaz de interromper guerras, capaz até de gerar muitos e muitos bilhões de euros, mas mesmo assim ainda é um esporte. E no esporte, a menos que me engane, nada pode ser mais importante do que o atleta.

O que eu acho que dá para esperar, se o ‘business’ continuar sufocando o esporte é o fim do próprio negócio. O único objetivo daqueles que dirigem o futebol ‘moderno’ é o lucro líquido, pois esse objetivo está liquidando o esporte. Esses senhores ávidos por fortuna ainda vão acabar matando a galinha dos ovos de ouro. Em dias como aquele três de fevereiro de 2010, não se deve jogar futebol. Um jogo que, em nome dos direitos da TV, ninguém pode ver pela TV em razão do próprio horário. No Monumental quase ninguém compareceu. Enquanto isso, no Parque Lami, no jogo entre Porto Alegre e Santa Cruz, não duvido que houvesse mesmo só o sol por testemunha.

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2 comentários em “O sol por testemunha.”

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