Falklands são ofensa à toda a América Latina.

 

 

 

O ano da graça de 1833 estava sendo mesmo um ano muito chato. Ninguém ainda havia tido a ideia de inventar o futebol  e nem a TV por assinatura. Não tinha Premier League e nem Champions League para assistir. Nada. Aquele papo de comadres durante o chá das cinco já estava mais que saturado. Entediada, entre um e outro ‘scotch’, Sua Majestade convocou o comandante de Sua Esquadra Real e assim a ele ordenou:

Meu filho, hoje eu não tô boa. TPM é foda, na minha idade então, mais foda ainda. Tô precisando desestressar. Cá entre nós, – disse a rainha em  tom mais baixo – só sei desestressar de um jeito: colonizando. Eu adoro colonizar. Bem que cê podia me dar uma mão nisso, né?

Pois não, Majestade. Sou um seu escravo. Mandai e eu obedecerei – disse o bravo comandante inglês.

Faz o seguinte então. Pega dois dos meus barcos, quaisquer dois, pode escolher, eu tenho um monte, e sai aí nesse marzão. Vê se me ‘descobre’ – e ela,  nesse momento,  soltou um risinho sarcástico – um pequeno país, um arquipélago, até uma ilhota que seja. Alguma coisa. Me ‘descobre’ algo que eu possa colonizar. Eu ando bem ‘crazy’ pra colonizar alguma coisa.

Pois não, Alteza. Seu desejo é uma ordem – disse o valente comandante e começou a se retirar.

Ah, última coisa, vai pro Sul. Acho que ainda não ‘descobrimos’ – novamente o risinho – nada lá naquela tal de América do Sul. Vai pra lá. ‘Descobre’ lá.

Imediatamente o audacioso, audaz, intrépido e corajoso navegador inglês partiu rumo às geladas águas do Atlântico Sul. Sem muitas opções e concluindo que Fernando de Noronha não era suficientemente ao Sul e que, por isso mesmo, talvez não resolvesse o problema da TPM Real, o incansável capitão, famoso ‘descobridor’ de terras já habitadas, acabou ‘indo dar’ nas Malvinas.

Não deve ter sido nem um pouco difícil expulsar os poucos habitantes das ilhas, todos eles argentinos. Fácil também foi cravar na terra turfosa uma bandeira britânica e uma plaquinha onde se lia: Falkland Islands, sob nova direção.

Isso ocorreu há quase dois séculos, mas acho que nem por isso legitima a posição do governo britânico de se proclamar dono do arquipélago. Não importa quantos anos ainda passem, a verdade é que as ilhas pertenceram primeiro aos argentinos. A ocupação das ilhas por britânicos se deu por meio de uma invasão injustificável, inaceitável e ilegítima.

A exploração de petróleo no leito do oceano que circunda as ilhas seria uma nova agressão à soberania argentina. Uma agressão que não se restringe apenas a nossos hermanos, mas que ofende (ou deveria ofender) toda a América Latina.

O que não me surpreende, porém ainda assim me entristece, é o tipo de cobertura que a mídia profissional faz do assunto. Qualquer brasileiro que leia, ouça ou assista matéria produzida no Brasil sobre este tema terá, muito provavelmente, a impressão de que as Malvinas são e sempre foram território da rainha, que os argentinos é que estão querendo invadir um território estrangeiro e que o presidente Lula é louco (ou burro) ao solidarizar-se com nossos vizinhos castelhanos.

O mundo nunca será justo e pacífico enquanto houverem povos que por terem mais dinheiro, mais armamento e menos humildade que outros, acreditarem que podem ser donos de tudo que veem, de tudo que tocam, de tudo que desejam, acreditarem que podem ser donos de tudo, até dos países dos outros.

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