E agora quem poderá nos defender?

Na noite de domingo, 25, um taxista de Canoas foi assassinado em Barra do Ribeiro, cidade distante cerca de 50 km de Porto Alegre. Mais um trabalhador vítima de latrocínio. Mais um número nas estatísticas da Secretaria de Segurança Pública. Apenas mais um taxista morto. Nenhuma novidade. Tudo normal.

Quase tudo.

Embora o caso não tenha tido grande repercussão, a verdade é que ele se constitui num exemplo do descaso com que os cidadãos gaúchos têm sido tratados nos últimos tempos. Depois de ter-se adonado das telhas que deveriam ter sido entregues às vítimas dos vendavais da última primavera no interior do estado, depois de ter assegurado um aumento substancial a seus oficiais, depois de ter assassinado um membro do MST em São Gabriel, depois de tanto fazer o que não deveria, desta vez a Brigada Militar inverteu o procedimento e acabou deixando de fazer exatamente aquilo que é sua função primordial: prestar assistência à população.

O que teria pensado o taxista canoense quando conseguiu enviar um pedido de socorro aos policiais que avistara tão próximos? Por certo acreditou que o socorro viria, que seu táxi seria abordado por uma viatura policial, que os assaltantes seriam detidos e que sua féria e sua vida seriam salvas. Deve ter sido isto o que pensou. Mas e os policiais pensaram o quê? Que era uma brincadeira? Será que acharam que, por ser uma noite de domingo, merecessem um pouco mais de sossego e ficar abordando táxis ocupados por supostos latrocidas seria esforço demais? Será que queriam assistir o Fantástico? Será que ainda estariam fazendo piadinhas sobre o Gre-nal?

E o que vai acontecer agora?

"Se confirmada essa denúncia, os dois devem ser punidos. Considero o fato muito grave" – declarou o comandante do 31º BPM.

O fato não é apenas grave, é inaceitável. Por omissão, os policiais acabaram sendo co-autores do assassinato. Ora, eles tiveram a chance de salvar uma vida, o que aliás é sua obrigação, é o motivo pelo qual a sociedade lhes paga salário, porém decidiram não fazê-lo. Isso é hediondo. O que resta então aos cidadãos gaúchos se aqueles que têm o poder e a missão de promover a segurança pública vão agora se dar o direito de escolher quando o farão? A quem recorrer na hora da necessidade, às orações? Parece que é isso. Parece que o jeito será apenas rezar para não morrer, ou então morrer rezando que é para ao menos tentar ir pro céu.

Não tenho motivos para duvidar da Justiça, menos motivos tenho ainda para acreditar nela. Policiais Militares não são presos nem quando são os autores diretos da morte de algum cidadão, neste caso, onde o crime seria por omissão, por negligência, menos ainda se pode esperar que alguém vá parar na cadeia.

Curiosamente o site Zero Hora publica, hoje, matéria sobre o tema segurança. O título, que encheria de entusiasmo qualquer governante que estivesse em campanha por reeleição, é o seguinte:

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Violência em queda no RS: indicadores criminais despencam em abril

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Na matéria, o titular da Segurança Pública do estado afirma que cada um dos 3500 PMs trabalha quarenta horas semanais e comemora que o número de homicídios tenha sido reduzido de 156 em março par ‘apenas’ 105 em abril. Ora, senhor secretário, não sei como alguém pode ‘comemorar’ 105 assassinatos, e mais, se os PMs de Barra do Ribeiro estivessem efetivamente trabalhando na noite de domingo, este número seria ainda menor: 104.

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