A Pátria, a CBF e o time do Dunga

Há alguns anos atrás as manhãs de domingo eram as ocasiões em que nos lembrávamos de que éramos brasileiros, era nestas manhãs que exercitávamos todo o nosso patriotismo, e fazíamos isto torcendo por Ayrton Senna.

Não somos um povo guerreiro, não somos dados a conflitos, não temos inimigos e, embora o pré-candidato tucano tenha andado puxando briga com meio-mundo nos últimos tempos, a verdade é que não deveremos ter algum tão cedo. Até porque esse tal pré-candidato parece cada vez menos candidato e suas chances de se tornar presidente e colocar em prática sua política internacional de confrontação diminuem a cada pesquisa de intenção de votos.

Nossos confrontos contra outros países geralmente se dão no campo esportivo. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos têm sido, desde que Rubinho Barrichello assumiu, ou tentou assumir, o lugar de Senna, nossas grandes chances de fazermos alguma demonstração de patriotismo. Não temos, graças a Deus, nenhum rei ou rainha que nos una, não estamos disputando a posse de nenhum território nem há ninguém que queira discutir conosco o nosso direito à soberania sobre nosso gigantesco país. Nada disso.

Que somos todos brasileiros é algo de que nos lembramos mesmo é na hora do jogo, na hora que algum atleta ou seleção brasileira está disputando uma medalha olímpica ou então, e principalmente, quando a Seleção Brasileira entra em campo. Nestes momentos todos nós nos unimos em torno de algo comum.

Todos nós?

A imensa maioria dos brasileiros estará torcendo pelo time de Dunga, a chamada Seleção Brasileira, nesta Copa. Alguns, porém, não o farão. Eu não farei. E pelos meus motivos.

A começar pelo fato de que a Copa do Mundo é, para mim, apenas um evento esportivo. Ganhar ou perder uma Copa não significa mais do que apenas ser bom ou ruim de bola. Ganhar uma Copa não torna um país ou um povo melhores por isso. Já pensaram se ganhar uma Copa significasse ser o melhor país do mundo? Imaginem. O Brasil já ganhou várias Copas. Se ganhar uma Copa significasse crescer como Nação seríamos a mais avançada do mundo.

Que motivos tinha eu para torcer pelo time de Dunga e da CBF na manhã de hoje? Assistir um enfrentamento entre Brasil e Zimbabwe e torcer pelo Brasil é, mesmo sendo brasileiro, imperdoável. Ainda mais em um jogo amistoso. É algo parecido com assistir o duelo entre Davi e Golias e torcer contra o Davi. É, mal comparando, ficar ao lado de Israel em sua luta eterna contra a Palestina. Imperdoável.

Se eu já não acho que futebol tenha algo a ver com Pátria, menos ainda acho que o jogo de hoje tinha algo a ver. Nenhum sentimento de patriotismo seria capaz de me fazer torcer pelos azuis no amistoso desta manhã. O time de Dunga e da CBF, que cobrou 1,3 milhão de euros dos impostos recolhidos pelo povo pobre do Zimbabwe apenas para ajudar na auto-promoção do regime do ditador Robert Mugabe, não estava ali para representar o Brasil, ele estava ali para engordar os cofres da entidade e para isso fez uso do nome do Brasil. Imperdoável.

Já assisti muitas Copas e meu comportamento nesta próxima não deverá ser diferente daquele que venho demonstrando desde a Copa de 1986, vou estudar caso a caso. Vou estar torcendo por um time diferente a cada partida, sempre dando preferência aos países mais pobres. Nada impede que eu torça pelo Brasil em caso de termos que jogar contra a seleção de um rico país europeu ou contra os EUA, mas não creiam que eu vá torcer contra a Costa do Marfim. Isso é apenas mais uma Copa.

Sabemos que o Brasil, que sediará e provavelmente vencerá a Copa de 2014, não precisa de mais uma Copa. Sabemos que o Brasil sempre que entra em campo, ainda que não precise, conta com a simpatia da arbitragem. Sabemos o que significaria para a África se algum país africano conseguisse vencer esta Copa. Torcer pelo Brasil, que não precisa de outra Copa, seria torcer contra a África, a sofrida, a saqueada, a agredida e esquecida África. Seria torcer contra a  África, de quem os brancos, de tanto roubarem vidas e riqueza no passado e no presente, roubaram também o futuro. Imperdoável.

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2 opiniões sobre “A Pátria, a CBF e o time do Dunga”

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