A Copa não é importante

 

Aqueles que são mais novos que eu certamente já devem ter ouvido várias vezes falar sobre o apartheid, mas provavelmente não tenham chegado a ver as imagens que eu via na década de oitenta em quase todos os telejornais noturnos.

Imagens de policiais brancos agredindo, perseguindo e até atirando em homens, mulheres e crianças negras. Negros correndo desarmados por ruas empoeiradas. Essa é a imagem da África do Sul que guardo daqueles tempos.

Naqueles tempos a África do Sul, que sempre fora terra de negros, havia se tornado um país dos brancos. Os negros estavam ali por uma única razão: alguém precisava servir aos senhores e senhoras de pele branca e olhos azuis que haviam se tornado proprietários de tudo, que mandavam em tudo e que diziam aos negros o que podiam ou não. E os negros, além de trabalhar e comer o suficiente para não morrerem, não podiam quase nada. Ir e vir livremente era direito de brancos, os negros só poderiam ir até onde os brancos mandassem ou permitissem.

Comandados pela alma livre e libertária de Nelson Mandela, em uma história que eu confesso que não sei contar, os africanos resistiram ao regime cruel imposto pelo invasor ariano. Muitas décadas e muitos mortos depois, os verdadeiros africanos conseguiram reconquistar o direito de serem tratados como legítimos cidadãos no país onde nasceram, graças a Mandela.

Pois bem, chegamos ao ano de 2010, Século XXI, e finalmente, na última sexta-feira, pudemos assistir a abertura oficial da Copa do Mundo. A esperada Copa da África.

Não importam mais todas as dúvidas lançadas pelos incrédulos quanto às condições e à capacidade da África do Sul sediar uma Copa. Não importam mais as opiniões daqueles que apostavam  que o país não estaria pronto a tempo, as imagens de homens negros ainda trabalhando às vésperas do dia da abertura, as greves de trabalhadores, tão alardeadas ao longo do tempo em que as obras estavam em andamento, nada disso importa.

Deu tudo certo, a Copa já começou.

Falta de estrutura hoteleira? Falta de segurança? Falta de mobilidade em Johannesburgo? Violência urbana? Ora, quem não tem?

A Copa começou. A África do Sul estava pronta. Toda a África estava pronta.

Não deem ouvidos aqueles que, por falta de coisa melhor para dizer, ainda haverão de criticar a administração do evento, que culparão a ‘geradora de imagens’, que criticarão as dificuldades de comunicação, que se queixarão da falta de linhas telefônicas, que jurarão que a internet é muito lenta, que denunciarão que foram roubados, assaltados ou enganados. Não deem ouvidos a esses.

Fiquem com as imagens.

As imagens de brancos e negros no mesmo lugar, lado a lado, vestindo a mesma camisa, cantando a mesma música e chorando abraçados, felizes pelo mesmo gol. O gol do negro de amarelo uniu brancos e negros num abraço enorme. Agora eles torcem pelo mesmo time, eles querem a mesma coisa, eles amam e dividem o mesmo país.

Fiquem com as imagens.

Esqueçam as imagens de brancos que matavam negros em ruas empoeiradas. Fiquem com as imagens dos negros abraçados aos brancos em um estádio lotado de gente de cores diferentes que formam um povo só.

Agora a Copa já não é o mais importante. Que todos os jogos sejam muito ruins. Não faz mal. Qualidade de imagem? Que besteira. Não estamos assistindo uma Copa, estamos testemunhando que os homens, ainda que não sejam da mesma cor, ainda que não tenham a mesma crença, se não quiserem, não têm que ser inimigos.

Fiquem com as imagens.

Temos vários tamanhos, formas e cores, mas somos todos iguais e somos livres como bandeiras ao vento.

 

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