Dunga ou Maradona?

Enquanto Dunga, o inesperado herói dos esquerdistas nacionais, se declara incapacitado de compreender o período da ditadura militar, que afirma que por não tê-la vivido não consegue julgar se ela teria sido boa ou ruim, enquanto Dunga, o improvável ídolo dos socialistas brasileiros, afirma que não tem opinião sobre questões como o apartheid e a escravidão que os brancos, durante séculos, impuseram aos negros, Maradona, o argentino que nasceu humano e foi, por seu talento, elevado à categoria deus, traz tatuada na própria pele uma imagem que fala por si mesma. Ninguém tem o direito de duvidar de que Maradona tem opinião sobre estes assuntos. Qualquer um pode perceber bem claramente o que Maradona pensa sobre situações de opressão aos mais fracos. Basta olhar o rosto tatuado em seu braço direito. Se eu tivesse que escolher um ídolo e se o critério de escolha fosse a capacidade  de se indignar ante a opressão, é claro que, entre Dunga e Maradona, eu escolheria o craque argentino.

Vi o jovem Maradona ao vivo no festival de inauguração do Olímpico Monumental, depois, ao longo da década de oitenta, o vi vestindo a camisa do Napoli, formando dupla com Careca, e enchendo de magia as manhãs de domingo de todos os amantes do futebol com efe maiúsculo. Eu vi Maradona brilhar no México em 1986, assim como Pelé fizera em 1970. Maradona brilhou como um sol, luziu como uma estrela num céu de roça. Maradona correu, lutou, jogou, driblou, venceu, convenceu. No México Maradona foi craque, foi rei, virou deus. O deus da bola. O pequenino deus que por arrancadas tortas, repletas de dribles e ziguezagues, escreveu o desfecho mais certo para aquela Copa.

Em 1982 a então primeira-ministra da Inglaterra, Margaret Tatcher enviou ao Atlântico Sul uma pequena amostra do seu poder de guerra. Destróiers, fragatas, porta-aviões, caças-bombardeiros, centenas de marines e até um submarino nuclear andaram aparecendo lá pelo sul do mundo. Tudo para derrotar a Argentina e retomar para a rainha a posse das Ilhas Malvinas, que os ingleses até hoje insistem em chamar de Falklands. Isso feriu o orgulho do povo argentino, nem poderia ser diferente. Alguma resposta deveria ser dada. E foi. Sem armas, sem bombas, sem sangue. Em 1986, com uma só mão, Diego Armando Maradona derrotou a Inglaterra. Alguns minutos mais tarde, na mais fantástica jogada, Maradona fez o mais lindo gol que meus olhos já viram até hoje. A Inglaterra estava enfim derrotada completamente. O orgulho argentino restituído. Maradona venceu ao opressor.

Não vou ficar aqui gastando teclado para escrever sobre Dunga, o jogador de futebol. Todos conhecem sua fama. Não jogava nada. Ponto.

Se eu tivesse que escolher um ídolo e se o critério de escolha fosse a capacidade de encantar com a bola nos pés, de transformar o esporte em magia, é claro que, entre Dunga e Maradona, eu escolheria o deus argentino.

Maradona é digno, não teme, se posiciona. Maradona encara as questões difíceis. Maradona supera os adversários, mesmo que sejam maiores e mais fortes, mesmo que eles sejam muitos. Eles não podem marcá-lo. Na vida, assim como no futebol, Maradona não veio para ser marcado, mas para deixar marca.

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2 comentários em “Dunga ou Maradona?”

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