Lula, o velho Brasil e o novo brasileiro

 

Por Alexandre Haubrich (jornalista, editor do blog Jornalismo B – www.jornalismob.wordpress.com)

Como tudo na vida e na morte, o governo Lula chega ao seu final sem acabar verdadeiramente. A herança fica. Tudo o que é feito se reproduz infinitamente no universo, cada uma de nossas pequeninas ações diárias se encadeia com as ações alheias para construir o instante seguinte e, em uma projeção gigantesca mas realista, para construir todo o futuro do universo. Quando um presidente deixa o cargo para uma sucessora do mesmo partido escolhida pessoalmente por ele, é claro que essa sequência de acontecimentos não poderia ser menos relevante. Por isso, o governo Lula, mais do que a maioria das coisas, acaba sem acabar. Mas, de todo modo, troca-se o governo.

Em oito anos como presidente da República, Lula levou o Brasil ao menor índice de desemprego da história do país, a um índice de analfabetismo baixo, tirou milhões de pessoas da pobreza absoluta, fez o Brasil tornar-se um país respeitado politicamente nos países nortistas, que sempre nos viram de cima. Continuam nos vendo assim, mas agora nós nos vemos no mesmo nível. Nosso Norte é o Sul, e o Norte deles já é um Norte quase envergonhado da ideia fixa de superioridade.

O Brasil melhorou. Todos os índices sociais tiveram melhoras, os econômicos também, assim como a política externa, que transformou-se, finalmente, em real política externa brasileira, não um braço da política interna norte-americana. O país ganhou corpo. Mais gente foi incluída em tudo. Educação, saúde, trabalho. A dívida brasileira diminuiu, assim como a inflação. O Brasil deixou de ser credor do FMI. As privatizações cessaram, o Estado cresceu.

O PAC, mesmo com problemas, fez andarem obras que se arrastavam há anos. Trouxe investimento em infraestrutura, trouxe emprego, deu porte e cara de porte ao país. O Bolsa Família, mesmo com problemas, fez andarem as pessoas que mal se equilibravam em pé por causa da fome que retorcia estômagos e torcia membros e distorcia cabeças. O Minha Casa Minha Vida, mesmo com atrasos, trouxe moradia a centenas de milhares de famílias, e fez com que, nos próximos momentos, um milhão de famílias passem a ter um teto sobre suas cabeças.

No dia em que Lula pisou no Palácio do Planalto, o povo teve esperanças. No plural mesmo, porque foram muitas as esperanças. Um metalúrgico pobre, migrante da região mais pobre e mais esquecida do país, pouco ligado à lida política, tenta por anos e anos e anos comandar um dos maiores países do mundo. E, uma hora, depois de tanto tentar, consegue.

O primeiro pensamento que deve ter chegado à cabeça de nove em cada dez brasileiros pobres, que ainda são tantos, é: “agora alguém vai olhar para mim”. Sim, porque chegou lá alguém que conhecia as realidades mais duras entre as duras realidades dos mais sofridos entre o sofrido povo brasileiro. E Lula, mais do que todos os outros presidentes que o Brasil já tivera, realmente conhecia tudo isso. E, mais do que todos eles, olhou para o povo.

Parte da velha elite foi apartada do poder pelo voto popular. A elite branquinha e limpinha, ideologicamente nascida e forjada nas universidades européias e norte-americanas, teve de amargar oito anos de governo de um sujeito barbudo, com a pele meio escurecida, um ex sujo de graxa e suor, que nunca chegaram às canetas e aos aparelhos de ar condicionado dos governantes anteriores. O eterno terno de Fernando Henrique Cardoso foi substituído pelo novo terno de Lula. Esse novo terno não fez de Lula um “novo rico”, deslumbrado e com memória curta. Lula não esqueceu o uniforme e o capacete de metalúrgico, não esqueceu a fome e o analfabetismo, mas deu um jeitinho para manter tudo isso conciliado com o terno novo, com o cabelo arrumado e com a fartura do poder. A conciliação de tudo com tudo o mais foi a tônica do governo Lula.

Parte da velha elite econômica foi substituída pelo que se transformou rapidamente em uma nova elite política, enquanto parte da velha elite política e econômica foi mantida no poder através da conciliação do PT com os caciques que há gerações comandam os mais diversos cantos do país. Nomes como Sarney, ACM e Calheiros, para ficar só nos mais óbvios, estiveram sempre próximos ao governo petista. Até Collor teve seus momentos. O PP esteve no governo desde seu princípio, assim como o PMDB. Dessa forma, a tal conciliação esteve presente desde a formação de governo e, é claro, havia de estar presente também nas ações governamentais.

Ao mesmo tempo em que muita gente ascendeu à classe média e muitos outros evoluíram de miseráveis para apenas pobres, nunca antes na história desse país os banqueiros lucraram tanto. Ao mesmo tempo em que o Estado se fez mais presente, nunca antes na história desse país tivemos tantos cargos de confiança.

Ao mesmo tempo em que Lula olhou para os pobres e para a pobreza, o petismo intransigente de determinados sindicatos, centrais sindicais e movimentos sociais esvaziou a disputa política e a luta pela politização do povo, tão necessária ao desenvolvimento humano, constante e democrático de qualquer país. Com algumas lideranças cooptadas pelos privilégios do poder e com parte das bases cooptadas pelo fortalecimento dos programas sociais, a luta política à esquerda ficou restrita a nichos muito localizados e enfraquecidos.

Lula prendeu almofadas às mãos dos lutadores da luta de classes. Sobraram os pés, apenas, e apenas por isso ainda há esperança de reafirmarem-se os embates. Também reside, essa esperança, na fragilidade do nó dado às almofadas e na ânsia de liberdade das mãos.

As cordas que amarraram as almofadas às mãos não suportam o sistema que as impõe. Lula reacomodou as classes, aplicou no Brasil uma forma um pouco mais humanizada do capitalismo, mas é preciso entender que este nunca poderá ser tão humanizado e humanizador quanto é preciso para que a preocupação com o homem supere a preocupação com o capital. O dinheiro, o lucro, a vitória a todo custo e a superação dos outros homens seguem e seguirão como objetivos máximos. O homem lobo do homem. E, em um sistema capitalista, para um comer o outro precisa ser comido. Para um subir, outro precisa descer. Dessa forma, sempre haverá o miserável e sempre haverá o bilionário. E este sempre terá todos os privilégios sobre aquele. O que o governo Lula fez foi reduzir minimamente a diferença entre um e outro, e diminuir essa diferença mais do que esse pouco-ou-quase-nada não é viável em uma lógica capitalista.

Dando a ilusão da aproximação entre pobres e ricos, o governo Lula torna-se o bombeiro da luta de classes. As contradições, em vez de se acirrarem, são reduzidas apenas o necessário para que os mais pobres estejam conformados com sua situação de mais pobres, ou, no máximo, esperançosos de, pelo trabalho, tornarem-se ricos. A cultura do individualismo não foi apagada, e essa tentativa nem foi feita. O símbolo total é a chegada de um nordestino-pobre-metalúrgico à presidência. Deu a falsa impressão de que, com trabalho, “se chega lá”. Mas lá aonde? Lula foi uma exceção, como volta e meia aparece. Mas o que não foi explicado ao povo é que essa ascensão social não passa de um mito. A ilusão de que basta o trabalho duro para que se chegue a posições melhores é a reprodução do velho mito criado pelas elites para manter o povo submisso: trabalhe para mim e um dia serás como eu. A chegada de Lula à presidência criou a mentira de que a luta individual oferece a vitória. E a vitória, para o povo, não é política, mas econômica. O governo nada fez para desmentir esse símbolo.

A importância da coletividade e da união entre os trabalhadores foi esvaziada. O embate político entre dominados e dominantes não esteve nem perto de se dar, pelo contrário. Se no governo anterior, de Fernando Henrique e do PSDB, o acirramento das contradições entre ricos e pobres, entre governo e movimentos sociais, fez com que a politização tomasse caminho, com que o povo se indignasse e com que a margem de trabalho conscientizante da esquerda aumentasse, a reacomodação social promovida no governo petista apagou o incêndio sem reconstruir o que está queimado há 500 anos.

As melhorias sociais aconteceram, mas foram tímidas e, sem uma nova cultura, uma nova lógica, um novo sistema, não poderiam deixar de sê-lo. A educação continua horrível, a saúde nem se fala. As ruas continuam grandes e sujas mansões de pobres, as filas continuam o único remédio para os doentes, os hospitais continuam depósitos de cadáveres, as estradas continuam fábricas de cadáveres, os livros continuam artigos de luxo, as pessoas continuam se alimentando de lixo.

É claro que ninguém poderia esperar que todos os problemas criados em 500 anos fossem resolvidos em oito. Mas pouco foi feito para realmente resolver qualquer um deles, o sentido principal foi remendá-los. Na educação, por exemplo, o foco maior foi o ensino superior. Criaram-se muitas Escolas Técnicas, diversas Universidades Federais. Mas a quantidade de vagas foi ampliada sem ampliar-se a qualidade, incluindo o espaço físico. O Prouni reverteu para empresas de educação verbas que poderiam ser aplicadas em mais universidades públicas.

No campo, lucros crescentes para os grandes produtores, e quase nada de redistribuição de terras. Movimentos como o MST foram enfraquecidos pelas razões já citadas, e a Reforma Agrária necessária em nenhum momento esteve por acontecer. Reforma Urbana, então, menos ainda. As empreiteiras lucraram como nunca, e os sem teto continuam se multiplicando.

Veículo oficial do discurso das elites capitalistas, do agronegócio, das elites políticas e dos interesses dos países nortistas, a mídia hegemônica brasileira foi um dos elementos que, nas diversas eleições que Lula e o PT perderam até a vitória em 2002, contribuíram para manter qualquer faísca de esquerda longe do poder. E essa mídia não foi sequer questionada em momento algum, com exceção de alguns discursos do presidente, que em nenhuma medida concreta resultaram em oito anos. Eleição após eleição, dia após dia a mídia dominante descarta a esquerda e molda cabeças contra o PT. E, dia após dia, o governo passou tentando acomodar-se com essa imprensa. De novo a conciliação e, como nos outros casos, a mansidão segue partido apenas de um dos lados. O outro, às vezes silencioso, às vezes não tanto, segue atacando. Ainda que a verba publicitária do governo federal tenha sido melhor distribuída, também não podemos esquecer a quantidade recorde de rádios comunitárias fechadas.

A ânsia desenvolvimentista fez com que o meio ambiente ficasse relegado a segundo plano. Se é verdade que tivemos dois ministros do Meio Ambiente bem intencionados, também é verdade que o espaço político dado a eles foi insuficiente. Diminuição do desmatamento na Amazônia, mas negociações com desmatadores. Avanços nas negociações internacionais, mas obras do PAC com licenciamentos ambientais questionados por técnicos, hidrelétricas do Rio Madeira e Usina de Belo Monte em andamento.

Politicamente, o governo fez uma acomodação de partidos da direita e da centro-direita e de oligarquias as mais diversas, mantendo com Lula a lógica que se reproduz no Brasil, em formas variáveis, desde o século XVI. Conchavos, corrupção, trocas de favores. E o povo apartado do poder político, sem voz. Conferências da sociedade organizada, como a Confecom (Comunicação), pouco foram ouvidas. Experiências anteriores do próprio PT, edificantes, politizantes e democratizantes, como o Orçamento Participativo, não foram reproduzidas. Não houve repressão violenta aos sindicatos e movimentos sociais, é verdade, mas o enfraquecimento deles foi feito de outras formas. Os arquivos da Ditadura Militar que assassinou tantos, torturou tantos outros e reprimiu tantos tantos outros seguem em segredo.

A política externa foi um dos grandes méritos do governo Lula. Por oito anos, o complexo de vira-lata foi deixado de lado, e o Brasil conquistou o respeito de todos. Mesmo sob forte pressão da direita (incluindo aí importantes setores da mídia), deixamos de ser submissos aos mais ricos e de submeter os mais pobres. Foi de forma solidária que negociamos com os países que sofrem mais, e foi de forma altiva que nos posicionamos frente aos exploradores internacionais históricos. De forma amigável conversamos com países oprimidos e isolados pelo imperialismo econômico, político e cultural. Lula fortaleceu os laços com a África, dando um passo importante no longo caminho a ser trilhado pela verdadeira independência daquele continente; e fortaleceu os laços latino-americanos, entendendo, juntamente com outros governantes vizinhos, que apenas com a América Latina forte e unida podemos resgatar nossas raízes culturais e alcançar nossa independência tardia.

Porém, também na política externa nem tudo são flores. Enquanto Cuba enviava milhares de médicos ao Haiti, enviávamos soldados. Somos parte fundamental da missão da ONU que mantém ali um governo que derrubou o presidente eleito. E não é só no Haiti que há resquícios da direita na política externa brasileira. Lula regozija-se por ter passado de devedor a credor do Fundo Monetário Internacional. Ao conceder empréstimos ao FMI, o governo brasileiro legitima a política deste órgão e do Banco Mundial, que, como já fez com o Brasil no passado recente, sufoca os países pobres e impõe a eles cartilhas importadas do “american way of life” e adaptadas para manter esses territórios na subserviência eterna. Romper com o FMI era o grito pré-2002. Reacomodar foi a prática a partir de lá.

Carismático, popular, Lula tornou-se um mito, um semideus. É respeitado e temido pelos adversários, é adorado e amado pelos aliados. Com seu jeito simples e verdadeiro, Lula tornou-se a imagem do novo brasileiro. Em alguns anos, talvez vejamos camisetas com seu rosto pelas ruas do Brasil, os filmes sobre sua vida talvez se multipliquem – e com mais qualidade do que o que já foi feito –, bonecos barbudos cheios de acessórios – bonés, capacetes, ternos, macacões – logo deverão estar em todas as lojas de brinquedos. Os 83% de aprovação com que se encerra o governo não mentem. Por seus programas sociais, por sua grande máquina de propaganda, por sua trajetória inacreditavelmente vitoriosa e por seu carisma pessoal, Lula é um herói. Inverossímil, um extra-terrestre que chegasse hoje a Terra classificaria como “ficção científica” um livro que contasse a trajetória de Lula. Já a quantidade de seres humanos que conhecem e admiram Lula é maior do que a quantidade de homens que conheceram qualquer outro presidente brasileiro.

O governo Lula foi o mais popular da história do Brasil e esteve inserido no contexto de guinada à esquerda na política latino-americana. Lula, como presidente e estadista, foi um gênio político. O Brasil melhorou, internamente e em sua postura em relação aos demais países. Porém, nem acertos nem erros devem ser ignorados pela história desses últimos oito anos, que recém começa a ser escrita, e que não cabem em tão poucas palavras, pela grandeza do tempo e pela grandeza dos acontecimentos. O certo é que, em oito anos, as mudanças foram significativas, e o Brasil melhorou. Se essa melhora será o freio ou o impulso de avanços mais profundos, somos nós quem decidiremos.

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