Onde mora o coração

Abriu a janela, olhou ao longe, pensou: não é aqui. Os prédios elegantes das avenidas iluminadas não o encantavam. As pessoas lá embaixo apressadas, falando com as mãos, correndo de lá para cá, não o seduziam. Não falavam seu idioma. Talvez não o entendessem, não soubessem quem ele realmente era. Talvez aquelas pessoas lá embaixo não conhecessem a história do menino pobre que saiu de casa ainda muito jovem com um destino que podia ser previsto por todos: conquistar o mundo. Dez anos se passaram. O menino magro, de dentes gigantes e sorriso fácil, não existe mais. O menino cresceu, Virou um homem. Virou estrela. Virou grife, produto de marketing. Por algum tempo chegou a ser considerado o melhor do mundo na arte que praticava. Seus dribles mágicos, seus passes geniais e suas certeiras cobranças de faltas fizeram dele um homem rico. Em sua conta, os euros multiplicaram-se aos milhões. Conheceu o mundo. Roma, Madri, Seul, Nova Iorque, Milão, Tóquio, Eldorado do Sul, enfim, o mundo. Andou, andou e andou. Podia ter qualquer coisa que o dinheiro pudesse comprar. Podia querer qualquer coisa, ter qualquer coisa. Cerveja, churrasco, mulheres, uísque, Ferraris, mulheres, tudo podia ter. Fãs apaixonados, que dariam um braço por um autógrafo ou uma foto com ele, os tinha aos milhões. Centenas de pessoas correndo atrás dele dispostas a depositar mais alguns milhões de euros em sua conta já tão gorda, bastava ele querer, bastava ele assinar. Ele tinha tudo com que sonham a maioria dos homens, tinha até a possibilidade de tornar realidade alguns sonhos alheios. Definitivamente, o menino havia se tornado um homem muito poderoso. Por que, então, perdera o sorriso?

Homens comuns têm a chance de realizarem muitos de seus sonhos, no entanto normalmente acabam frustrados quando a realização de alguns deles esbarra na dependência do vil metal. Homens muito ricos e poderosos não padecem deste sofrimento, mas continuam, ainda assim, e apesar de todo dinheiro que têm, sendo apenas frágeis seres humanos. E os seres humanos, ainda que sejam muito especiais, estão sujeitos a sonhar com coisas bastante simples, e às vezes apenas querem voltar para casa. Ter muitos imóveis, mansões, coberturas, espalhados pelo mundo, por vezes não é o bastante. De que vale estar num luxuoso quadriplex de uma rica cidade europeia, quando isso não o faz sentir-se em casa? O tempo a tudo apaga. Apaga também as mágoas. Faz-nos querer voltar. Toda a beleza do Velho Mundo, sua arquitetura, seus museus, suas ruas históricas, palcos de acontecimentos que fizeram a humanidade tornar-se o que é, não bastam, não quando percebemos que nosso coração não está lá, que ele ficou em casa. Então, neste momento, é lá que queremos estar.

Um dia o menino magro que jogou tanto, tanto que acabou se tornando um homem bastante poderoso, decidiu voltar para casa, e ao perceber que a verdadeira casa é o lugar onde mora o coração, dirigiu-se à Azenha. Pediu para voltar. Nossa camisa é a tua camisa, menino-craque. Nossa casa é a tua casa, guri fujão. Volta, Ronaldo, chegou a hora. Sorri de novo, Ronaldo.

Pode entrar, Ronaldo, pode ficar à vontade, você está em sua casa. Finalmente.

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3 opiniões sobre “Onde mora o coração”

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