Não consumir, eis o próximo desafio

 

consumoNormalmente ouvimos falar em chuvas acima ou abaixo da média. Acostumamo-nos com isso já há bastante tempo. Já sabemos que a chuva é medida em milímetros e que, ao longo do tempo, os meteorologistas acabaram calculando médias históricas para cada um dos meses do ano, nos vários biomas e microclimas do nosso Brasil continental.

Sabemos que, por exemplo, no mês ‘x’ costuma chover a média de ‘y’ milímetros na localidade ‘z’. Ora, o mês ‘x’ pode variar em quantidade de dias, pode ter de 28 a 31 dias. Sabemos também que não é normal que todos os dias de um mês sejam chuvosos, ao contrário, o normal é que os dias chuvosos sejam minoria. Então, já devíamos ter aprendido que a média normal de chuva de um determinado mês não corresponde à quantidade de chuva que o solo irá receber ao longo do mês, não podemos imaginar que em algum mês de trinta dias, cuja a média histórica seja de 210 mm, vá chover 7 mm/dia. Não, não funciona assim. Esses 210mm cairão sobre a terra, os vales e as pessoas em apenas alguns poucos dias do mês, talvez em um único dia. A chuva de um mês inteiro pode, lá no passado [que é de onde vem a tal ‘média histórica’], ter-se precipitado em algumas poucas horas. Mas a ‘média histórica’ não leva isso em consideração. Para a ‘média’ o que vale é quociente obtido a partir da divisão do total dos milímetros de chuva precipitada pelo total dos dias do mês.

E então? Como ficamos? Obras estruturais para conter 210 mm de chuva ao longo de um mês podem ser as mesmas necessárias para conter 200 mm em, por exemplo, apenas seis horas? E vejam que ainda concedi 10 mm de desconto.

A natureza é onipresente e onipotente. O homem, ainda que se julgue o mais poderoso e adaptável dos seres deste planeta, não é tão potente assim ante as descomunais e incontroláveis forças da natureza, que costuma livrar-se [para sempre] de todo aquele que se mostra incapaz de adaptar-se a seus “caprichos”. A natureza não gosta de morros nus em latitudes tropicais, ventos e águas logo tratam de aplainar montanhas despidas de sua vegetação protetora. Pedras instáveis em encostas íngremes logo sofrem a ação da gravidade.

Parece estar havendo um grave conflito entre o homem e a natureza a partir das últimas cinco ou seis décadas. Aliás, não parece, está mesmo, e é bem visível. O homem insiste em tentar moldar a natureza aos seus desejos e necessidades. A natureza, porém, não é capaz de adaptar-se ao ser humano – nem sei como alguém possa imaginar que algo assim fosse possível – e responde à altura, com violência.

Não creio que a solução para problemas do tipo dos ocorridos recentemente na região serrana do estado do Rio de Janeiro passe apenas por obras estruturais de combate às enchentes e enxurradas. Precisamos aceitar que necessitamos de um novo modelo de desenvolvimento, precisamos criar um novo modelo de civilização.

Aprender a não consumir, ensinar a não consumir, eis o próximo desafio.

Do contrário, independente do quão corretos estejam os cálculos realizados a respeito da ‘média’ de chuvas, ou do quão bem intencionadas e perfeitamente executadas serão as obras que ora nos prometem, mas que na verdade nem temos a plena certeza de que algum dia sairão do papel, as coisas não irão mudar de verdade, e tudo o que poderemos fazer será calcular, resignados, a ‘média’ anual das vítimas causadas por eventos climáticos cada vez mais severos, cada vez mais fatais, cada vez mais corriqueiros e, o pior de tudo, cada vez mais explorados por uma mídia desumana e desonesta que outra coisa não faz senão antecipar sempre a próxima eleição.

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