Meu pequeno Grêmio

Tarde demais para lamentar, cedo demais, porém, para que se percam todas as esperanças. Neste momento, a busca por culpados não ajuda em absolutamente nada. A busca por culpados, aliás, é uma inversão de prioridades muito comum entre nós, muito comum e extremamente nociva, pois bem mais proveitoso seria se, ao invés de gastarmos tempo e neurônios na tentativa inútil de descobrir de quem é a culpa, estivéssemos todos empenhados em encontrar alguma solução. Deve haver uma. Não ajuda em nada quando a atual direção gremista vem, através de Antônio Vicente Martins e, mais tarde, do presidente Paulo Odone, gritar aos microfones de todas as rádios que “a culpa foi do contrato mal feito pela gestão Duda Kroeff”. De nada nos adianta que o ex-presidente Duda ‘pinta de playboy’ Kroeff venha tentar nos convencer de que “era o máximo que se podia fazer naquele momento, que podia ter sido pior”. Ainda que tudo isto seja verdadeiro. não vai adiantar nada o senhor Duda Kroeff lamentar o fato de ter sido obrigado a desfazer-se de Réver ou Felipe Mattioni, por exemplo, em razão de erros da gestão que o antecedeu, no caso o mesmo atual Paulo Odone. Dividir alegrias, repartir os méritos de uma conquista, compartilhar campanhas bem sucedidas, tudo isso é muito bom. Dividir forças, porém, é extremamente danoso ao clube. Além de comprometer o futuro do Imortal. Já era hora de todos sentarem à mesa e fumarem o cachimbo da paz. Pelo bem do Grêmio.

Desde tenra idade aprendi a fumar o cachimbo da paz. É bem legal, embora digam que faz mal ao corpo, ao espírito faz um imenso bem. Querer o bem do Grêmio, no entanto, é coisa que comecei a fazer muito antes disso .Eu não fui como a maioria dos meninos que, lá pelos cinco a oito anos, influenciada por pai, padrinho, vizinho ou sei lá o que, opta por torcer por um clube. Eu nunca tive opção, eu jamais pude escolher. Tenho certeza de que já nasci Tricolor. As lembranças mais remotas de minha infância são de uma época de enchente no Bairro Mathias Velho, aqui em Canoas, e de estar escutando, pouco depois desta enchente, um jogo do Grêmio contra não-sei-quem em um pequeno rádio de pilhas. Espinosa e Loivo são os únicos nomes que lembro da escalação do Grêmio neste jogo ocorrido há tantos anos. Ironicamente, não guardo qualquer lembrança do heptacampeonato conquistado pelo Grêmio em 1968, nem de nenhum outro campeonato conquistado antes disto. A primeira vez que pude comemorar um título conquistado por nosso clube foi em 1977, quando eu já tinha quatorze anos. Portanto, toda a minha infância e parte da adolescência foi vivida sob o jugo do inimigo. Eles ganhavam tudo, nós não conseguíamos nada. Eles iam para as ruas desfilar em seus carros, fazer barulho com suas buzinas e seus foguetes. Eu não. Eu ficava em casa. Eu e o meu pequeno Grêmio. Mas mesmo assim eu sabia, bem no fundo eu sabia, que tudo aquilo era passageiro, que o Grêmio, embora todos me quisessem fazer crer o contrário, era muito grande, era maior do que todos, e que apenas ainda não havia chegado o momento. Um dia o mundo inteiro haveria de conhecer a grandeza do Grêmio, um dia. Nada perdi por esperar. Da geral eu vi, em 1981, Paulo Isidoro fazer dois gols, virar o jogo sobre o São Paulo, e abrir o caminho para a conquista do nosso primeiro Brasileiro que viria alguns dias depois no Morumbi. Da geral eu vi Renato, em 1983, embretado emum pequeno canto do gramado, fazer algumas embaixadas e, tal qual o mago que tira coelhos de uma cartola, tirar do nada um passe mágico que César transformou em gol. Um gol de título. Um gol de Libertadores. Um gol que me libertou. Libertou-me de tudo, dos risos, das ironias, das flautas de mau gosto, da mania que eles tinham de dizer que o meu time era menor que o deles. Não era. O campeão da América era o Grêmio. O Grêmio era, definitivamente, inquestionavelmente, o maior clube do sul do Brasil. O nosso Grêmio. Mais tarde o Grêmio ganhou também o mundo (isso eu não vi da geral, isso eu vi na RBS mesmo). Isso foi há muito tempo, muitas outra coisas eu vi da geral neste tempo todo e entre tombos e reerguimentos, sucessos e insucessos, a verdade é que eu sempre fui muito feliz, pois agora todos, e não apenas eu e alguns poucos, sabiam que o Grêmio era grande, muito grande, muito, muito grande.

Um dia algo aconteceu. O que terá sido? De repente uma interminável sucessão de gestões desastradas e/ou predatórias começou a desfazer tudo o que havia sido construído ao longo de quase um século de árdua luta de dirigentes, jogadores e, sobretudo, de abnegados torcedores. Nunca mais um título. Dívidas, protestos, penhoras. Tudo errado. A humilhação do segundo rebaixamento. A falta de grandeza para alcançar a conquista de algum título realmente importante. Dois vice-campeonatos que outra coisa não são senão um sinal de que estava começando a faltar-nos a velha grandeza comum aos verdadeiros campeões. Tudo errado.

Eu tinha certeza de que Odone daria um jeito nisto, ainda mais depois de 2010 ter terminado da forma como terminou. Nenhum outro ano havia, há muito tempo, se apresentado tão promissor a uma retomada de rumo como este ano de 2011. Só mesmo um gremista muito pessimista pensaria o contrário, especialmente entre a semana do Natal e o sábado do triste fim da “novela Ronaldinho”. Eu nunca vi uma reversão de expectativa tão grande assim. Estava tudo tão certo… Mudou tudo e agora dá tudo errado. Quem viria não vem mais, quem chegou a vir e até treinar teve de ser devolvido, e até mesmo aquele que já estava aqui e era das maiores esperanças agora vai-se embora. Quase de graça. Adeus, Mestre Jonas. Tudo errado.

Ao Mestre, com carinho, dediquei a imagem do cabeçalho do blog. Logo depois do fim da partida, logo depois do Mestre ter feito os dois gols da vitória sobre o São José, de virada, a primeira vitória do Imortal dentro de nosso sagrado e monumental estádio neste 2011, logo depois dos inesperados chiliques do próprio Jonas e de parte da torcida presente. Tirei a foto da bandeira do Grêmio, que há mais de ano ilustrava o cabeçalho do Somos Todos Torcedores. Queria homenagear o Mestre, queria me solidarizar com sua dor. Queria que ele ficasse aqui. Não sou tão burro ou tão radical para chegar ao ponto de taxar o artilheiro Jonas de mercenário, traidor ou coisa parecida, como estão fazendo alguns, mas também não consigo aceitar que é tudo tão normal, tão ‘profissional’, como afirmam outros. Eu não consigo compactuar da ideia de que ganhar dinheiro é a única coisa que dá sentido à vida de um homem e que acumular riqueza deva ser sua obstinada tarefa durante todo o tempo compreendido entre o primeiro e o último dias de sua vida. Em poucos lugares andei nesta minha pacata e monótona vida de trabalhador de baixa renda, mas em cada um deles eu encontrei muitas coisas de grande beleza, bem maior que a beleza triste e enganosa dos cifrões. Acho que era esse desapego ao vil metal que me fazia crer que Jonas renovaria. Deu tudo errado.

Algo de muito errado ocorreu um dia no Conselho do Grêmio. Aquele que souber o que ocorreu, provavelmente estará bem perto da solução. Então não será mais tão importante encontrar os culpados, afinal, ninguém é culpado, assim como também não há nenhum inocente. Hora de virar a página, esquecer as mágoas e as diferenças, depois de amanhã tem jogo de Libertadores. Quero de volta o Grêmio de minha juventude, o que ganhava Libertadores. O Grêmio atual, o Grêmio do terceiro milênio, não é grande. Perdoem-me por dizê-lo, mas a verdade é que não é. Tantas gestões equivocadas e contraproducentes, tantas más notícias, tantos erros de contratação, tantas dívidas, tantas falsas promessas, tantas coisas ruins e tudo ao mesmo tempo. Chega, por favor chega. Não diminuam ainda mais o nosso Grêmio.

Vi-me criança ao final da manhã de hoje. Outra vez eu estava nos fundos de um quintal muito plano, de terra preta, no Bairro Mathias Velho. Eu não estava só, comigo estavam uma velha bola de couro, ‘tamanho oficial’, e uma surrada camisa listrada em três cores. Eu estava feliz e não tinha nenhuma pressa. Eu sabia que logo iríamos crescer, eu e o meu pequeno Grêmio. Eu já não posso mais crescer, o Grêmio ainda pode. Por favor, cresça.

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O guri da foto sou eu, na década de sessenta, no Bairro Mathias Velho, que à época ainda não havia sido elevado à categoria bairro, ainda era a velha Vila Mathias Velho. O autor da foto, muito provavelmente, deve ser o meu pai, que nunca foi gremista.
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