Regras e mudanças de regras

Não existem sociedades sem regras. Toda sociedade esportiva, cultural, religiosa ou seja lá o que for, necessita de regramentos que definam a forma de seu funcionamento. Até as sociedades de animais ditos irracionais têm regras segundo as quais se comporta cada um dos indivíduos que as compõem. No entanto, parece que na sociedade dos homens, só os indivíduos mais fracos (mais pobres) parecem estar presos às regras, os mais fortes (ricos) simplesmente as ignoram quando lhes convém ou até, em alguns casos, as modificam.

São muitos os exemplos do desapego de certas pessoas ao cumprimento de algumas regras que, por algum motivo, estão a contrariar seus interesses.

No futebol existe uma regra vigente há bastante tempo e que determina que cada clube brasileiro possa contar com no máximo três atletas estrangeiros em uma mesma partida. Essa é uma regra antiga e que jamais foi contestada, ao menos que eu me lembre, pelos ‘opinadores isentos’ da mídia esportiva gaúcha. Todos os clubes brasileiros a vem observando e respeitando desde o início de sua vigência e, ao que parece, todos sempre a consideraram como salutar. Uma espécie de ‘reserva de mercado’ que servia para proteger o investimento feito nas categorias de base. Mas eis que um clube nouveau riche gaúcho excedeu-se um pouco em sua paixão repentina pelo futebol platino e acabou contratando um número exagerado de atletas argentinos. Não pode, o clube imprevidente, escalar todos os seus áses em jogos de campeonatos organizados pela CBF. Oh, e agora o quê fazer? Depois de um longo e aprofundado estudo de mais ou menos uns vinte e sete segundos, os ‘opinadores isentos e sábios’ de nosso estimado futebol pampeano chegaram a uma conclusão muito lógica e bastante desinteressada: a regra não presta, é preciso mudá-la, é preciso que se liberem os clubes para que usem tantos quantos atletas estrangeiros desejarem e puderem contratar. Não duvido que consigam tal mudança de regra, afinal. ainda que os benefícios que uma alteração desta natureza possa trazer ao esporte sejam discutíveis, para os negócios ela é ótima.

No transporte público de Porto Alegre também estão ocorrendo mudanças nas regras – além do preço que mudou, é claro. A partir do dia 1º de julho próximo, quem precisar fazer uso de dois ônibus em seu deslocamento, poderá fazê-lo pagando apenas uma passagem, a segunda sai de graça. Desde que o sujeito consiga fazer isso em trinta minutos, certo? Eu fico pensando em como isso pode funcionar. Quem irá controlar o tempo gasto pelo cidadão? O controle deverá, provavelmente, ser feito pelo cartão TRI. Mas os trinta minutos serão contados a partir de quando? A partir do momento em que o passageiro passar pela roleta e pagar a passagem? Se for assim é claro que não vai dar certo. Desde o momento em que se paga a passagem até o momento em que efetivamente se cumpre o trajeto podem se passar vários minutos. Lá se foi o direito à segunda viagem gratuita. O que vai acontecer, se a regra for essa, é que ninguém vai ter coragem de passar da roleta até que esteja bem próximo do local onde pretende descer e pegar o outro ônibus. Ou será que vão colocar um relógio-ponto na porta de saída para poder controlar o horário que o sujeito desembarcou do primeiro ônibus? Não sei se alguém já explicou como essa ideia vai funcionar na prática. E ainda tem os tais pontos de transbordo que deverão surgir logo na capital. Quando começarem a funcionar os tais ‘ligeirinhos’ todos vão precisar de dois ônibus para chegarem ao centro. Daí que a tal segunda viagem gratuita se torna apenas uma teoria, na prática não muda nada. Quer dizer, quase nada. Garanto que já está cheio de empresário comemorando. Qualquer trabalhador que hoje receba quatro passagens por dia, terá, a partir de 1º de julho, seu valetransporte reduzido para apenas duas. Se não conseguir cumprir o tempo de trinta minutos ele que fique com o prejuízo. Para quem trabalha em feriados e finais-de-semana isso vai ser uma beleza. Mas, enfim, vamos aguardar.

No FSM, lá no Senegal, o ex-presidente Lula andou fazendo um comentário [para mim bastante inoportuno], sobre a intenção dos sindicalistas representantes das Centrais Sindicais, aos quais classificou como oportunistas, de aprovarem um salário mínimo maior do que apenas R$ 545. E vejam que a presidenta Dilma, generosa, ainda concedeu mais cinco reais de aumento, Lula queria que o salário ficasse em R$ 540. Não acho que estejam errados os líderes sindicais em sua pretensão, e o faço por dois motivos: o primeiro é que a função de um sindicalista é mesmo a de lutar por salários cada vez mais justos, ninguém deveria discutir isto; e segundo porque o Brasil, vangloriava-se o Lula, foi o último país a entrar e o primeiro a escapar da “marolinha” que dizimou algumas economias importantes da Europa e levou o todopoderoso EUA a um índice de desemprego inimaginável naquele que é considerado “o país das oportunidades”. Então por quê os trabalhadores brasileiros terão de esperar um ano mais para fugir dos efeitos da crise? Os empresários brasileiros não têm do que se queixar. Continuam se queixando, é claro, queixam-se de tudo, especialmente dos impostos, dos juros, e do ‘peso de suas folhas de pagamento”, do custo duríssimo de se gerar empregos nesta terra. Mas não nos importemos, esse é o papel deles. É bem verdade que o governo Lula implementou regras fixas para o cálculo do valor de cada novo salário mínimo, uma política de valorização do salário mínimo cuja ambição é alcançar uma remuneração digna aos trabalhadores lá no distante ano 2023. Mas será que é preciso esperar tanto? Será que os trabalhadores assalariados deste país não contribuíram em nada para o bom momento econômico que o país vive atualmente? Será que só empresários e políticos e seus apadrinhados é que podem desfrutar deste momento? Lula desfaz dos trabalhadores e de seus companheiros sindicalistas, esquece que essas são as origens de grande parte de sua popularidade e sucesso. Aos trabalhadores ele pede que continuem se contentando com pouco, que esperem o bolo crescer ainda mais antes de quererem ter direito a uma fatia dele, que, por enquanto, se contentem com as migalhas. Aos líderes sindicais, Lula acusa de oportunismo por estarem querendo “mudar as regras”. Conveniente ao ex-presidente vir agora lembrar as regras e da necessidade de seguí-las. Esquece-se de que havia uma regra muito antiga segundo a qual todo trabalhador brasileiro, ao completar 35 anos de contribuição – ou menos em alguns regimes especiais – tinha direito à aposentadoria integral independente de idade. Quem mudou essa regra? Não foi o presidente Lula, é verdade, foi o velho FHC e seu famigerado Fator Previdenciário. O Lula, porém, teve a chance de reparar esse erro, de fazer com que se respeitasse a velha regra. Lula, no entanto, não quis, essa era uma mudança de regra que lhe convinha.

E assim voltamos ao início do post, só os indivíduos mais fracos (mais pobres) parecem estar presos às regras.

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