Arena Grêmio: "Deus lhe pague, meu bom homem"

“Se eu voltar para casa sem dinheiro, não tem problema, Jesus toma conta de mim e me dá força para trabalhar”.

A gente humilde que vai construir a Arena Grêmio. Crédito Vinícius Roratto

Essa declaração está no site Sul 21, e foi publicada no último dia três de março. A declaração é atribuída a um dos pobres trabalhadores que a OAS, a encarregada da construção da nova Arena Grêmio, trouxe do nordeste brasileiro para executarem o serviço. Serviço, que eu digo, é aquela parte suja, pesada e insalubre, realizada no calor intenso sob sol ardente, na chuva ou no frio inóspito (quando ele chegar) do rigoroso inverno gaúcho. Aquela parte que sempre cabe aos mais pobres fazerem: o serviço propriamente dito, onde os engravatados jamais põem as mãos.

O site da construtora declara aqui nesta página, que “acredita no potencial de todo ser humano” e que “desenvolve programas voltados para a descoberta de novos talentos no mercado, aperfeiçoamento profissional e reconhecimento de seus colaboradores pela produtividade”. Será que isso é verdade? Será que a empresa foi buscar esses trabalhadores lá no distante nordeste brasileiro apenas por seu reconhecido talento? Será – a ser verdadeiro o que relatam os trabalhadores trazidos para Porto Alegre – que o modo como estão sendo tratados pedreiros e ajudantes, é tratamento que se dê a um ser humano em pleno século XXI?

A frase inicial do post, a declaração do trabalhador abandonado em um hotel do Centro de Porto Alegre, deve constituir o sonho de todo empregador capitalista, desumano e interessado no lucro mais do que em qualquer outra coisa na vida. “Se eu voltar para casa sem dinheiro, não tem problema, Jesus toma conta de mim”, disse ele.

Sendo assim, depois que a obra acabar, depois que todo serviço tiver sido feito, depois que todos os capitalistas engravatados, exploradores do trabalho alheio, tiverem auferido muitos milhões em lucro, nem seria preciso pagar aos homens que efetivamente teriam erguido nosso novo estádio, bastaria uma confraternização de despedida, um pão com salsichão regado a guaraná meio quente e um agradecido “Deus lhe pague, meu bom homem”. Seria, muito provavelmente, mais do que suficiente para esse humilde homem que apenas quer trabalhar.

Pois, já que o mundo está assim há séculos, e já que as coisas não vão mesmo mudar tão cedo, eu apenas digo: “que Deus tenha piedade de nós, trabalhadores e trabalhadoras”.

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Uma consideração sobre “Arena Grêmio: "Deus lhe pague, meu bom homem"”

  1. Deus lhe page! A empresa da familia do falecido Malvadeza, que oportunamente ganhava todas as empreitadas durante o finalzinho milagre econômico e na esteira ao renascimento da “década perdida”, faz o que qualquer empresa altamente competitiva faria: Impulsionada pelo sangue dos desafortunados, mirando a grana dos desavisados, navegar em mares de bonança não importando o que ou quem estiver na frente.

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