O "fracasso" de Cuba no Pan Americano

Na verdade, uma eventual superioridade esportiva do Brasil sobre Cuba nem deveria ser usada como propaganda, isso deveria ser considerado quase como uma obrigação. O Brasil é o Estado mais rico e populoso da América Latina, infinitamente mais rico e muito populoso que a diminuta Cuba, superá-la, então, no número de medalhas deveria ser a consequência natural das coisas. Só não o é, no entanto, pelo louvável esforço e pela admirável capacidade de Cuba, seu povo e seus governantes.


Por Alves Rodrigues

O jornalismo produzido pelo Grupo RBS, afiliada gaúcha da Globo, não é pior ou melhor que aquilo que fazem os outros grandes grupos jornalísticos do Brasil. É a mesma coisa. Elogiam ou criticam pessoas, países, governos, políticas ou movimentos de acordo com seus próprios interesses.

Quando a RBS não gosta de algo ou alguém não poupa críticas, não desperdiça nenhuma oportunidade de ataque.

É óbvio que esta empresa não gosta de gente como Chávez, Fidel, Raúl e Ahmadinejad. Ditadores inimigos da democracia é o que são, segundo a definição do grupo jornalístico gaúcho e eu concordo que sejam. No entanto, nem sempre a RBS combateu os ditadores. Na verdade, o que ela sempre fez, e ainda faz, é escolher o ditador que lhe serve, que lhe convém. Fã da ditadura militar no Brasil, a qual apoiou e da qual colheu benefícios, do que o Grupo RBS não gosta realmente é de ditaduras não alinhadas ao imperialismo americano. Ignora o que acontece em Honduras. Não aprofunda a discussão sobre o terrorismo fascista e genocida do poderoso Israel contra a injustiçada Palestina. Não discute a ditadura dos Saud, mas, oportunista, demonizou a ditadura não-alinhada de Kadafi no momento em que o Pentágono e a Casa Branca decidiram que ela não lhes era mais útil.  Fez o mesmo com Saddam Hussein, caçado pelos americanos após este ter perdido a utilidade na guerra dos ianques contra os aiatolás do Irã. A RBS não tem nada contra os ditadores do mundo inteiro, apenas o que ela não suporta, não tolera e não admite são os inimigos do capitalismo colonizador proposto pelos – no passado ricos e poderosos – americanos e europeus , e que o milionário grupo capitalista gaúcho considera o mais perfeito dos modelos econômicos. Ora, deve ser muito fácil louvar o capitalismo quando se é tão capitalizado!

Na América Latina ninguém se contrapõe mais à política imperialista de Washington do que a Venezuela, de Chávez, e a pequena Cuba, de Fidel e Raúl. Fica fácil, por isso, entender a razão pela qual os jornalistas assalariados do Grupo RBS, tão aguerridos defensores da causa do ‘antissocialismo’, não perderam a oportunidade, desde os primeiros dias do Pan Americano de Guadalajara, de forçarem comentários – na verdade, mais comemorações pessoais do que comentários críticos – sobre um suposto fracasso cubano no México e a "evidente decadência da prática esportiva" no país de Fidel.

Logo no segundo ou terceiro dia dos jogos, quando o Brasil, com nove medalhas de ouro, nadava de braçada nas piscinas mexicanas, e deixava bem para trás a "fracassada" Cuba, com apenas uma medalha de ouro, começaram a surgir comentários deste tipo. E eles apareciam, via de regra, nos espaços políticos e não apenas nos esportivos, o que deixa ainda mais claro que essas ‘opiniões isentas’ não passavam de puro ‘lobby’ antissocialista, nada a ver com o esporte, nada a ver com os Jogos Pan Americanos propriamente, nada a ver com o espírito de integração entre os povos, que é, afinal, o objetivo do evento Pan Americano. Pan Americano que, aliás, o Grupo RBS, por ser afiliado à Globo, também ajuda a boicotar e, afora alguns pequenos boletins recheados com algumas dessas ‘pérolas’, pouco ou nada expõe ao público gaúcho.

Na verdade, uma eventual superioridade esportiva do Brasil sobre Cuba nem deveria ser usada como propaganda, isso deveria ser considerado quase como uma obrigação. O Brasil é o Estado mais rico e populoso da América Latina, infinitamente mais rico e muito mais populoso que a diminuta Cuba, superá-la, então, no número de medalhas deveria ser a consequência natural das coisas. Só não o é, no entanto, pelo louvável esforço e pela admirável capacidade de Cuba, de seu povo e de seus governantes.

Chego a sentir pena dessas pessoas pequenas capazes de comemorar o tal ‘fracasso’ cubano nos Jogos. Gente cega, incapaz de reconhecer que Cuba, por lutar há mais de cinco décadas contra um bloqueio econômico injusto e injustificável – condenado por todos e apenas mantido pela vontade assassina dos dois principais agentes do terrorismo mundial, EUA e Israel -, por não ter acesso a crédito no Banco Mundial ou no Banco Interamericano de Desenvolvimento, por não poder estabelecer relações comerciais com nenhuma empresa norte-americana, nem deveria, sejamos sinceros, figurar com destaque no ranking de medalhas de qualquer edição de Jogos Pan Americanos ou Olímpicos. Cuba, no entanto, é figura destacada dos Jogos. Seus atletas ganham medalhas em diversas modalidades esportivas, o que demonstra que a prática esportiva é incentivada na Ilha, que o esporte, em Cuba, é mais do que entretenimento, mais do que apenas um espetáculo midiático capaz de gerar ainda mais riqueza para quem já é tão rico, como parece ser a forma que Globo e RBS veem o esporte de uma forma geral. Em Cuba o esporte ainda é política de Estado. Mesmo após a queda do muro, mesmo que a guerra fria já tenha acabado e que a falecida União Soviética já não mais patrocine atletas cubanos como forma de promoção do comunismo.

O Pan Americano de Guadalajara ainda não se encerrou e não sei se Cuba se colocará à frente do Brasil ou não. Mas creio que todos já entenderam que considero Cuba como o grande vencedor desta e de muitas outras edições de Pan e de Olimpíadas. Por seu diminuto território, pelos ataques que sofre, enfim, por tudo, Cuba está muito além do que qualquer pequeno país capitalista neoliberal estaria, se enfrentasse as mesmas condições de bloqueio e perseguição política.

Bom seria, amigos, simpatizantes da Ilha ou  inimigos de Fidel, que nosso Brasil se espelhasse mais nos bons exemplos de Cuba no esporte, na saúde e na educação pública, e que nossos jornalistas se preocupassem mais com a informação e menos com o lobby capitalista.

Bom será quando o jornalismo brasileiro aprender a falar do Brasil, de Cuba, da Espanha, de Oman, do PT, do PSDB, de Hugo Chávez, de FHC, da Venezuela, da Arábia Saudita e da Colômbia com mais isenção.

Mais jornalismo e menos propaganda, mais consciência e menos lobby. Quem sabe com isso não formemos uma consciência social que produza melhores cidadãos, melhores atletas e, possivelmente,  conquistemos mais medalhas? Mais até do que a pequena e isolada Cuba. Quem sabe?


Nota: (extraída do Jornalismo B impresso)

Segundo a UNICEF, Cuba é vanguarda na América Latina nos cuidados com as crianças.

Com 43% da Câmara de Deputados e mais de 60% da força técnica profissional composta por mulheres, o Fórum Econômico Mundial declarou que Cuba é o país da América Latina que melhor defende a igualdade de gênero.

Cuba tem cumprido quase todos os objetivos do milênio, já erradicou a desnutrição infantil e o analfabetismo, e assegura para 2015 cumprir todos os objetivos… apesar do bloqueio.

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