Somos todos macacos?

macaco (1)

Todo mundo conhece a história da banana atirada contra Daniel Alves pela torcida do Villareal durante partida do Campeonato Espanhol da temporada passada.

Daniel comeu a banana. Simbolicamente, ‘devorou’ o racismo contido no gesto de quem a atirou.

A partir daí, e muito rapidamente, utilizando a imagem de Neymar, surgiu uma campanha, alegadamente antirracista, que tomou conta das redes sociais e gerou muito dinheiro.

Não tenho conhecimento de que a campanha “Somos todos macacos” tenha causado algum efeito prático na luta (se é que de fato existe uma luta) contra o racismo.

Mas, pense bem, será verdade que somos todos macacos?

Qualquer pessoa, por mais fraca que seja na interpretação de texto, vai ser capaz de compreender que o “somos” do título da campanha faz referência, única e exclusivamente, ao seres humanos. Nenhum outro animal foi convidado a participar da campanha. Talvez porque o único animal conhecido possuidor de cartão de crédito e portador de capital para sustentar campanhas que, lá no fundo, apenas visam o lucro é mesmo o ser humano.

Não, não somos todos macacos. Os brancos sabem muito bem que humanos e macacos são espécies distintas. E quando um branco se refere a um negro como macaco, sua intenção é apenas ofender e humilhar. Não foi diferente na noite em que torcedores gremistas chamaram o goleiro adversário de macaco.

Por mais que eu seja gremista, por mais que o Grêmio seja parte importante da minha vida – e o Grêmio realmente é -, não posso discordar da decisão tomada pelos auditores do STJD na tarde de ontem. Ainda que o blog Grêmio 1903 traga provas que depõem inegavelmente contra um dos auditores que votaram pela exclusão do Imortal, eu não lamento o resultado. Eu realmente não esperava um julgamento justo e isento. Por dois motivos. Primeiro porque, como qualquer um pode verificar clicando aqui, jamais acreditei na isenção das pessoas, ainda mais depois que a mídia, como geralmente faz, já havia assumido o papel de Poder Judiciário e, sem inquérito e sem direito à defesa, condenado o Tricolor; e, segundo, porque achava que o Grêmio merecia mesmo punição.

O poder criativo da mídia é interminável. A mídia cria heróis e vilões, cria modas, cria padrões de consumo e de comportamento. Se preciso, cria os fatos. Cria também marcas extremamente fortes. O país da impunidade é uma das marcas coladas ao Brasil dos tempos recentes. Não vou discutir se isso é um reflexo da realidade ou apenas mais um produto da inesgotável criatividade dos senhores comandantes das grandes corporações midiáticas. Mas cabe lembrar – só porque sou chato e declarei ódio eterno à mídia capitalista – que o Brasil detém a segunda maior população carcerária do planeta. Será que isso é punir pouco? A maior parte desta população, por óbvio, tem pele negra.

Eu penso que a injustiça é algo ainda pior, infinitamente pior, que a falta de justiça. Vejo muita gente, gaúchos ou não, gremistas ou não, denunciando, agora, que o Grêmio teria sido vítima de injustiça na tarde de ontem no STJD. Apesar de tudo o que escrevi aí acima sobre certas ‘peculiaridades’ de pelo menos um dos auditores que condenaram o Grêmio ontem e sobre a necessidade de condenar o clube devido à pressão dos meios de comunicação, ainda assim não acho que o Tricolor tenha sido vítima de injustiça. A tv mostrou claramente (e a internet fartamente) a imagem de uma menina chamando o goleiro adversário de macaco. Outros torcedores, através de gestos, palavras e imitações, também o injuriaram. O Grêmio afirma que, além da menina, teriam sido mais quatro. A lógica manda acreditar que esse número seria bem maior. Atitudes racistas ocorreram naquela noite dentro da Arena. Seria, além de muito burro, extremamente injusto querer negar. A multa de pouco mais de 50 mil reais e a exclusão de uma competição que – vamos ser sinceros – ele já estava eliminado ficou até de bom tamanho. Eu cheguei a imaginar que pudesse ser pior.

Dizem que a mancha de ser excluído de uma competição por racismo permanecerá para sempre na história do clube. Posso concordar que isso é algo muito triste, mas não posso culpar o STJD por isso, nem culpar seu auditor de comportamento reprovável. A história do Grêmio vem sendo escrita, dia após dia, desde 1903. Na noite de 28 de agosto de 2014, na Arena, a gente estava escrevendo mais um pedaço dela. As pessoas que resolveram se comportar como se humanos não fossem, elas sim mancharam a história, não foi o STJD. Se o Grêmio não merecesse uma punição severa, e até nem achei tão severa, seria, aí sim, de uma extrema injustiça. Contra os negros e contra todos os que acreditam que somos todos humanos, não macacos.

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