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Só Siegmann explica (de volta ao Monumental?)

novas traves no monumental
(Foto: Adriano de Carvalho)

Cresce ou decresce o valor que atribuo a comentários e opiniões de determinada pessoa ou empresa jornalística à medida que percebo os critérios que usa para a distribuição de seus elogios ou críticas. Desnecessário dizer que, no passar desses anos todos, muito mais pessoas decresceram do que cresceram nesse meu modo de julgar.

Tem gente que só elogia iniciativas vindas de determinados partidos. Tem gente que é contra o PT, por exemplo, e pronto. Tudo que venha do PT será criticado, não por estar errado, mas apenas por ser iniciativa de algum petista. Tá errado e pronto. Até o que está certo.

Tem o contrário também. Tem gente que elogia tudo que vê nesse partido. Até o que está errado.

Ma isso, é claro, pode se alterar em razão de interesses momentâneos e circunstanciais.

No futebol não é diferente.

Mas o tempo, que julgo ser a mais poderosa das forças da natureza, não nos traz apenas rugas, hipertensão e dores no corpo, ele nos traz também alguma experiência, um pouco de amadurecimento. Já vivi o bastante para saber que o mais importante de qualquer noticiário, quer seja econômico, político ou esportivo, muitas vezes não está naquilo que se ouve ou lê, mas naquilo que nos foi omitido.

O grande fato, de cobertura destacada pela mídia esportiva nesta manhã de quinta, é um estádio de futebol. E pasmem: os olhos da mídia estão voltados para o nosso velho Estádio Olímpico Monumental.

Bah, fala sério!!

Dilma-AG-SCI

(Foto: Tomas Hammes)
(Foto: Tomas Hammes)

A esmagadora maioria da mídia gaúcha não gosta do Corinthians nem de seu mais famoso torcedor, o Lula. Muito já foi dito, muito se diz e muito ainda se dirá sobre o papel do ex-presidente na construção do Itaquerão. Nada elogioso, é claro. A construção desse estádio tornou-se a oportunidade perfeita para os críticos que, a um mesmo tempo, conseguem reforçar as manchas que tentam pregar às imagens de um clube, um ex-presidente da República e um partido que eles odeiam.

Mas lembram do que eu escrevi logo acima, sobre ” interesses momentâneos e circunstanciais”? Pois é, mas será que quase ninguém vê profundas semelhanças entre a construção do Itaquerão e a tão elogiada “modernização” do estádio da beira do rio? Por cerca de quase um ano as obras estiveram paralisadas, Andrade Gutierrez e os responsáveis pelo estádio em reforma não chegavam a um acordo. Bastou, no entanto, um simples telefonema da presidenta Dilma Rousseff e o longo impasse restou resolvido. As obras reiniciaram.

E o que a imprensa gaúcha achou disto tudo? Por certo deve ter achado lindo. Ninguém discutiu o modo pelo qual o impasse foi resolvido, ninguém se interessou em saber o que Dilma teria dito ou prometido à construtora. Ninguém se importou. Ninguém quis, desta vez, criticar a iniciativa vinda de um membro do PT. E por que não? Porque neste momento, e sob estas circunstâncias, não era interessante criticar. E então que o acordão Dilma-AG-SCI é mais um exemplo de fato jornalístico onde o mais relevante não é o que foi noticiado mas o que foi omitido.

De volta ao Monumental?

Eu não gosto muito de tocar nos assuntos lá da beira do rio. Quase nem falo neles. Nem para elogiar nem para criticar. Se as obras da reforma foram paralisadas ontem, isso não é problema meu, não me interessa. Mas isso deveria interessar à imprensa, eu acho, e ser pauta dos programas esportivos de hoje. No entanto, para minha surpresa, só ouvi gente discutindo a Arena e uma possível reativação do Estádio Olímpico. Esse comportamento, essa escolha de pauta me faz lembrar sabem de quem? Do Dr. Roberto Siegmann, especialmente daquilo que ele dizia sobre CDs e livrinhos.

Funcionários da AG fazem paralisação por melhores salários e colocam em risco o cronograma da reforma. Isso não merece importãncia. Grêmio instala novas goleiras no gramado do Olímpico. Bah, que estardalhaço.

Qual o problema do Imortal continuar utilizando o espaço do Monumental? Que mal há em reinstalar as goleiras? Se o time treinar no gramado do Olímpico, o que tem de mais? E se o Tricolor realmente voltar a jogar na Azenha, já pensaram? QUE DEMAIS!

Não consigo entender o por quê de tanta gente criticando o Grêmio, a Arena e o Olímpico, quando o assunto verdadeiramente merecedor de crítica é a reforma lá na beira do rio. Não consigo.

Não consigo entender por que as coisas do Grêmio são tão merecedoras de ásperas críticas e as coisas do outro clube não.

Sei lá, certos comportamentos da mídia esportiva gaúcha só Siegmann explica.

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Regras e mudanças de regras

Não existem sociedades sem regras. Toda sociedade esportiva, cultural, religiosa ou seja lá o que for, necessita de regramentos que definam a forma de seu funcionamento. Até as sociedades de animais ditos irracionais têm regras segundo as quais se comporta cada um dos indivíduos que as compõem. No entanto, parece que na sociedade dos homens, só os indivíduos mais fracos (mais pobres) parecem estar presos às regras, os mais fortes (ricos) simplesmente as ignoram quando lhes convém ou até, em alguns casos, as modificam.

São muitos os exemplos do desapego de certas pessoas ao cumprimento de algumas regras que, por algum motivo, estão a contrariar seus interesses.

No futebol existe uma regra vigente há bastante tempo e que determina que cada clube brasileiro possa contar com no máximo três atletas estrangeiros em uma mesma partida. Essa é uma regra antiga e que jamais foi contestada, ao menos que eu me lembre, pelos ‘opinadores isentos’ da mídia esportiva gaúcha. Todos os clubes brasileiros a vem observando e respeitando desde o início de sua vigência e, ao que parece, todos sempre a consideraram como salutar. Uma espécie de ‘reserva de mercado’ que servia para proteger o investimento feito nas categorias de base. Mas eis que um clube nouveau riche gaúcho excedeu-se um pouco em sua paixão repentina pelo futebol platino e acabou contratando um número exagerado de atletas argentinos. Não pode, o clube imprevidente, escalar todos os seus áses em jogos de campeonatos organizados pela CBF. Oh, e agora o quê fazer? Depois de um longo e aprofundado estudo de mais ou menos uns vinte e sete segundos, os ‘opinadores isentos e sábios’ de nosso estimado futebol pampeano chegaram a uma conclusão muito lógica e bastante desinteressada: a regra não presta, é preciso mudá-la, é preciso que se liberem os clubes para que usem tantos quantos atletas estrangeiros desejarem e puderem contratar. Não duvido que consigam tal mudança de regra, afinal. ainda que os benefícios que uma alteração desta natureza possa trazer ao esporte sejam discutíveis, para os negócios ela é ótima.

No transporte público de Porto Alegre também estão ocorrendo mudanças nas regras – além do preço que mudou, é claro. A partir do dia 1º de julho próximo, quem precisar fazer uso de dois ônibus em seu deslocamento, poderá fazê-lo pagando apenas uma passagem, a segunda sai de graça. Desde que o sujeito consiga fazer isso em trinta minutos, certo? Eu fico pensando em como isso pode funcionar. Quem irá controlar o tempo gasto pelo cidadão? O controle deverá, provavelmente, ser feito pelo cartão TRI. Mas os trinta minutos serão contados a partir de quando? A partir do momento em que o passageiro passar pela roleta e pagar a passagem? Se for assim é claro que não vai dar certo. Desde o momento em que se paga a passagem até o momento em que efetivamente se cumpre o trajeto podem se passar vários minutos. Lá se foi o direito à segunda viagem gratuita. O que vai acontecer, se a regra for essa, é que ninguém vai ter coragem de passar da roleta até que esteja bem próximo do local onde pretende descer e pegar o outro ônibus. Ou será que vão colocar um relógio-ponto na porta de saída para poder controlar o horário que o sujeito desembarcou do primeiro ônibus? Não sei se alguém já explicou como essa ideia vai funcionar na prática. E ainda tem os tais pontos de transbordo que deverão surgir logo na capital. Quando começarem a funcionar os tais ‘ligeirinhos’ todos vão precisar de dois ônibus para chegarem ao centro. Daí que a tal segunda viagem gratuita se torna apenas uma teoria, na prática não muda nada. Quer dizer, quase nada. Garanto que já está cheio de empresário comemorando. Qualquer trabalhador que hoje receba quatro passagens por dia, terá, a partir de 1º de julho, seu valetransporte reduzido para apenas duas. Se não conseguir cumprir o tempo de trinta minutos ele que fique com o prejuízo. Para quem trabalha em feriados e finais-de-semana isso vai ser uma beleza. Mas, enfim, vamos aguardar.

No FSM, lá no Senegal, o ex-presidente Lula andou fazendo um comentário [para mim bastante inoportuno], sobre a intenção dos sindicalistas representantes das Centrais Sindicais, aos quais classificou como oportunistas, de aprovarem um salário mínimo maior do que apenas R$ 545. E vejam que a presidenta Dilma, generosa, ainda concedeu mais cinco reais de aumento, Lula queria que o salário ficasse em R$ 540. Não acho que estejam errados os líderes sindicais em sua pretensão, e o faço por dois motivos: o primeiro é que a função de um sindicalista é mesmo a de lutar por salários cada vez mais justos, ninguém deveria discutir isto; e segundo porque o Brasil, vangloriava-se o Lula, foi o último país a entrar e o primeiro a escapar da “marolinha” que dizimou algumas economias importantes da Europa e levou o todopoderoso EUA a um índice de desemprego inimaginável naquele que é considerado “o país das oportunidades”. Então por quê os trabalhadores brasileiros terão de esperar um ano mais para fugir dos efeitos da crise? Os empresários brasileiros não têm do que se queixar. Continuam se queixando, é claro, queixam-se de tudo, especialmente dos impostos, dos juros, e do ‘peso de suas folhas de pagamento”, do custo duríssimo de se gerar empregos nesta terra. Mas não nos importemos, esse é o papel deles. É bem verdade que o governo Lula implementou regras fixas para o cálculo do valor de cada novo salário mínimo, uma política de valorização do salário mínimo cuja ambição é alcançar uma remuneração digna aos trabalhadores lá no distante ano 2023. Mas será que é preciso esperar tanto? Será que os trabalhadores assalariados deste país não contribuíram em nada para o bom momento econômico que o país vive atualmente? Será que só empresários e políticos e seus apadrinhados é que podem desfrutar deste momento? Lula desfaz dos trabalhadores e de seus companheiros sindicalistas, esquece que essas são as origens de grande parte de sua popularidade e sucesso. Aos trabalhadores ele pede que continuem se contentando com pouco, que esperem o bolo crescer ainda mais antes de quererem ter direito a uma fatia dele, que, por enquanto, se contentem com as migalhas. Aos líderes sindicais, Lula acusa de oportunismo por estarem querendo “mudar as regras”. Conveniente ao ex-presidente vir agora lembrar as regras e da necessidade de seguí-las. Esquece-se de que havia uma regra muito antiga segundo a qual todo trabalhador brasileiro, ao completar 35 anos de contribuição – ou menos em alguns regimes especiais – tinha direito à aposentadoria integral independente de idade. Quem mudou essa regra? Não foi o presidente Lula, é verdade, foi o velho FHC e seu famigerado Fator Previdenciário. O Lula, porém, teve a chance de reparar esse erro, de fazer com que se respeitasse a velha regra. Lula, no entanto, não quis, essa era uma mudança de regra que lhe convinha.

E assim voltamos ao início do post, só os indivíduos mais fracos (mais pobres) parecem estar presos às regras.

Á bíblia e o crucifixo, a mídia e a blogosfera: Falhas

Crucifixo antigo sobre bíbliaDurante a campanha ao segundo turno das eleições passadas, os temas aborto e religião foram bastante explorados pela mídia social-democrata, cristã e hegemônica do Brasil. A intenção era bastante clara: fazer o eleitor acreditar que não valia a pena votar em Dilma Rousseff por ser ela favorável à prática do aborto, e que essa sua orientação advinha do fato de que a então candidata, simplesmente não acreditava na existência de um Deus, que era totalmente desprovida de fé espiritual e não respeitava, portanto, qualquer orientação religiosa. Isso, acreditava a mídia, poderia custar-lhe grande perda de votos entre os católicos e católicas mais conservadores, especialmente da região nordeste do Brasil. Entre os evangélicos, então nem precisamos falar, significaria a perda total de votos. Seria um desastre para a campanha. Dilma jamais teria sido eleita. Felizmente a ideia não colou. O rótulo de ateia não colou. Dilma venceu, graças a Deus (sic).

Eu gosto de conhecer diferentes opiniões sobre um único tema. Sei que não existe moeda de face única. Sei também que a história é uma versão contada pelos vencedores e que, portanto, não podemos ficar presos a uma única versão dos fatos, pois certamente, se nos resignarmos a uma única versão, estaremos conhecendo apenas metade da história. É por isso que a lista de blogs que leio não contém blogs direitistas. Eu conheço as manhas e as ideias dos neoliberais, elas estão todas na mídia. Basta ligar o rádio ou a tv, basta abrir algum jornal ou revista produzidos por qualquer dos grandes grupos editoriais brasileiros e encontramos uma infinidade de textos, imagens, “notícias” e “análises isentas” que, no fundo [e muitas vezes até no bem raso mesmo], não passam de descarada propaganda neoliberal. Por isso eu só leio blogs de esquerda. Por que fazem o contra-ponto à toda essa babaquice que a mídia oficial denomina de jornalismo. E, além do mais, são isentos e coerentes.

São mesmo?

Recentemente um grande jornal paulista “noticiou”, com grande alarde, que a presidenta Dilma havia determinado a retirada de seu gabinete de uma bíblia e um crucifixo, símbolos maiores do cristianismo. A repercussão entre os cristãos comuns do Brasil, trabalhadores assalariados, quase todos sem acesso a “luxos’” como a internet, e que só conhecem do mundo o que lhes é trazido pela tela da Globo, eu não sei. Mas sei o que aconteceu entre aqueles que publicam os blogs que leio [nem todos os blogs que leio estão linkados aí do lado – preguiça minha]. A “notícia” foi saudada, em quase todos os blogs, como uma bela e mui acertada decisão da presidenta. Elogiada por todos, alguns até lembraram que essa era uma prática antiga em alguns países do primeiro mundo. A “notícia” foi saudada como a mais coerente e correta atitude a ser tomada pela presidenta do Brasil que, afinal, se declara um Estado laico.

Mas a verdade é uma merda, amigos. Ela sempre vem à tona. Não demorou muito a surgir uma ministra para esclarecer os fatos, por luz à confusão. A “notícia” não passava de mais uma Falha (do jornaleco) de São Paulo. Dilma Rousseff não havia determinado a retirada de coisa alguma de lugar nenhum, apenas havia mandado que os tais símbolos religiosos fossem devolvidos ao seu verdadeiro dono, o seu antecessor, Lula, o presidente mais popular do mundo. A partir daí, o que vejo nos blogs: críticas ao jornalzinho. Pois é, o jornalzinho, que antes era criticado por estar tentando induzir o povo a condenar uma atitude presidencial que na verdade era correta, agora estava sendo criticado, e até satirizado, por haver sido desmascarado. A “notícia” não era notícia, vamos ridicularizar, por mais essa Falha, o jornal de São Paulo.

Mas e a história da bíblia? E toda a comemoração pelo laicismo da presidenta? Dilma, agora que devolveu os símbolos religiosos de Lula, vai trazer alguns seus? Dilma tem algum? Dilma Rousseff vai, enfim, por em prática a ideia de Estado laico, ou vamos ficar nesse joguinho de sempre, onde cada parte da mídia, a oficial e a blogosfera, apenas reproduzem o que lhes convém e quase ninguém tem coragem de criticar ou fazer cobranças aos partidos ou pessoas que lhes são simpáticos?

Prédios públicos não devem ostentar símbolos religiosos. Escolas públicas não devem ter a religião como disciplina curricular. Partidos políticos não deveriam poder se denominar cristãos. O gabinete da presidência NÃO PODE conter nenhum símbolo religioso.

Cada um que acredite ou não acredite em Deus da maneira que conseguir. Ninguém é obrigado a ser cristão só porque nasceu no Brasil, é? Que cada brasileiro seja livre para exercitar sua fé sem influências. Ou então, se assim o desejar, livre para não ter fé alguma, sem influências. Que cada um siga o caminho que lhe parecer mais correto.

E que seja o que Deus quiser. Amém.

Era isso. Salaam Aleikum.